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  1. Sobre coelhinhos e empanadas em Buenos Aires

    segunda-feira, 27 de maio de 2013


    Título: Bestiário
    Título original: Bestiario
    Autor: Julio Cortázar
    Tradutor: Remy Gorga Filho
    Editora: Círculo do Livro
    Número de páginas: 136
    Ano de publicação no Brasil: não consta

    Edição argentina [à esquerda da foto]:
    Editora: Alfaguara
    Número de páginas: 149
    Ano de publicação: 2001

    ***

    O melhor conto que já li na vida se chama Carta a uma senhorita em Paris e consta no livro Bestiário, escrito pelo argentino Julio Cortázar em 1951, quando ele tinha 37 anos.

    Li este conto pela primeira vez quando tinha 16 anos e fazia uma oficina literária promovida pela prefeitura de São José dos Campos, por convite da minha tia, que também participou da oficina. Eu era uma das pessoas mais jovens da turma e para mim foi tudo muito novo e enriquecedor. Ao longo do curso, que durou um ano, conheci e li vários autores importantes (Borges, Shakespeare, Maiakovski, entre outros), tive algumas orientações sobre criação literária e produzi alguns textos. Um dos meus sonhos é fazer esta oficina literária para voltar a escrever e produzir textos de qualidade.

    Carta a uma senhorita em Paris é um conto epistolar escrito por um homem que vai morar por um tempo no apartamento de sua amiga Andrée, que está em Paris. O apartamento fica na "calle Suipacha", em Buenos Aires, e me surpreendi ao saber que esta rua realmente existe - quando fui para lá, no começo dos anos 2000, de repente vi uma placa com esse nome.

     Foto tirada daqui

    Tudo correria normalmente, se não fosse pelo fato de o amigo da Andrée vomitar coelhinhos, que, segundo o narrador-personagem, "não é motivo para não viver em qualquer casa, não é razão para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e andar se calando".  Logo ao chegar ao prédio, no elevador, ele vomita um.

    "Ao passar o terceiro andar o coelhinho se mexia em minha mão aberta. Sara esperava em cima, para ajudar-me a entrar com as malas... Como explicar-lhe que um capricho, uma lojinha de animais? Envolvi o coelhinho em meu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando o sobretudo solto para não espremê-lo. Mal se mexia. Sua miúda consciência devia estar revelando fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço morno."

    Ele havia decidido matar os coelhinhos quando nascessem para que não o atrapalhassem durante o tempo em que fosse morar no apartamento da amiga, mas não conseguiu.

    Com o passar do tempo, ele vai vomitando outros coelhinhos e os esconde em um armário no quarto onde está hospedado, o quarto da amiga, para que a criada não os veja. De madrugada, deixa-os sair e os alimenta com trevos. Às vezes os coelhinhos estragam objetos no apartamento (essa é uma das razões pelas quais o amigo escreve a carta, porque acha justo informá-la sobre o que aconteceu).

    "Faço o que posso para que não destroçem suas coisas. Roeram um pouco os livros da prateleira mais baixa, vocês os encontrará escondidos para que Sara não note."

    Algumas páginas depois disso, Cortázar finaliza o conto.

    Uma característica interessante no apartamento de Andrée é que ela possui livros em idiomas diferentes e dicionários, o que indica que ela pode ser tradutora ou, pelo menos, que trabalha com idiomas diferentes. Já o amigo que ela hospeda parece ser tradutor mesmo.

    "Para mim é duro entrar em um ambiente onde alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, de outro em francês e inglês) [...] Como é condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la no outro extremo da mesa, pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar."

    " [...] e meu Gide que se atrasa, Troyat que não traduzi [...]"

    Já reli esse conto várias vezes e, apesar de nunca conseguir compreendê-lo (ou talvez por isso mesmo), continua sendo o meu preferido. A minha interpretação é que todos temos "coisas" internas desconhecidas que uma hora ou outra precisam ser externalizadas ou vomitadas. Coisas que às vezes nem imaginamos que existiam e pelas quais podemos sentir ternura em vez de tentar assassinar em nós.

    Para ler o conto na íntegra, clique aqui.

    Para ler o conto original, em espanhol, clique aqui.

    Algumas observações interessantes sobre o tradutor para o português que li aqui: Remy Gorga Filho nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, cursou Direito e trabalhou como jornalista em vários jornais do país e não pretendia ser tradutor. Aprendeu espanhol de forma autodidata, para que pudesse ler literaturas francesa e russa, que estavam mais disponíveis em espanhol. A pedido de um colega de trabalho no Jornal do Brasil, que gostaria de ler contos do Cortázar mas não entendia completamente, Gorga Filho traduziu o conto "Casa Tomada". Foi esse colega que apresentou a tradução para a editora Expressão e Cultura, que aprovou o trabalho e o convidou a traduzir Bestiário - sua primeira tradução publicada. Além de ter traduzido outras obras de Cortázar, também traduziu obras de Mario Vargas Llosa e uma de Gabriel García Márquez. Recebeu duas vezes o prêmio de tradução da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi o primeiro tradutor a pedir e ter seu nome na capa dos livros que traduziu.

    Contos que compõem o Bestiário/Bestiario:

    - Casa Tomada / Casa tomada
    - Carta a uma senhorita em Paris / Carta a una señorita en París
    - A distante / Lejana
    - Ônibus / Ómnibus
    - Cefaleia / Cefalea
    - Circe / Circe
    - As portas do céu / Las puertas del cielo
    - Bestiário / Bestiario
    ***

    Empanadas argentinas

    As empanadas são um prato típico argentino. Elas são vendidas em qualquer lanchonete ou mesmo em mesas abertas na rua - pelo menos em Buenos Aires é assim. São um tipo de pastel de carne assado.

    A receita abaixo é uma adaptação da receita do chef argentino Francis Mallmann e foi tirada deste site: Aprenda a fazer as típicas empanadas saltenhas.


    Ingredientes:

    Massa
    1 xícara de água
    ½ colher de sopa de sal [ou menos]
    2 colheres de sopa de banha de porco de boa qualidade [usei manteiga, porque não encontrei banha]
    3 a 4 xícaras de farinha de trigo

    Recheio
    1 batata média, descascada e cortada em cubos de 1 cm
    250g de carne bovina moída
    Sal grosso e pimenta-do-reino moída na hora
    Azeite de oliva extravirgem
    1 cebola média, cortada em quartos e depois em fatias muito finas
    4 cebolinhas em fatias finas
    ½ colher de sopa de páprica picante
    ½ colher de chá de cominho em pó
    2 ovos grandes cozidos, picados grosseiramente

    Obs: se preferir, separe uma gema para passar sobre as empanadas

    Modo de preparo - Massa
    Para a salmoura, coloque para ferver em uma panelinha, em fogo forte, a água com o sal. Acrescente a banha de porco e mexa até derreter, depois, coloque em um recipiente grande e largo. Deixe esfriar à temperatura ambiente.
    Misturando com a mão, junte aos poucos de 3 a 4 xícaras de farinha, uma de cada vez, até que se possa formar uma bola com massa. Espalhe ½ xícara de farinha sobre a superfície de trabalho para que a massa não grude, e sove, acrescentando farinha até que não absorva mais. A massa deve ficar bastante dura e sequinha. Divida a massa ao meio, abra até uma espessura de 3 mm ou menos, corte com cortador de massa ou com a ajuda de um pratinho em discos de uns 12 cm de diâmetro e envolva em filme plástico. Deixe esfriar pelo menos por uma hora, ou até 24 horas (a massa também pode ser congelada, bem embrulhada, por até um mês).





    Modo de preparo - Recheio
    Cozinhe os cubos de batata e os ovos. Reserve.
    Coloque o azeite na frigideira e depois a cebola. Deixe dourar e depois acrescente a carne moída, os temperos e, por último, a cebolinha picada.


    Depois disso, acrescente a batata e os ovos picados.


    Estique a massa e monte as empanadas.


    Se preferir, passe um pouco de gema sobre as empanadas antes de levá-las ao forno. 
    [Note que algumas estão "deformadas" - no começo não consegui acertar na forma, mas depois, com um pouco de prática, consegui "formatar" melhor.]


    Asse por cerca de 30 minutos ou até as empanadas ficarem douradas.


    ¡Buen apetito!


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