Rss Feed
  1. In the Kitchen with Alain Passard

    segunda-feira, 28 de abril de 2014


    Título: In the Kitchen with Alain Passard - Inside the World (and Mind) of a Master Chef
    Autor e ilustrador: Christophe Blain
    Tradutora (do francês para o inglês): Elizabeth Bell
    Editora: Chronicle Books
    Número de páginas: 96
    Ano de publicação: 2013
    Site do chef Alain Passard: http://www.alain-passard.com/

    ***

    Descobri este livro por acaso, quando estava olhando o site da Book Depository. Resolvi comprá-lo e, depois de quase dois meses, ele chegou. E não era bem o que eu esperava.

    Na verdade, não sei bem o que eu esperava, mas foi um pouco decepcionante. Talvez por já ter lido outras HQs envolvendo comida, achei essa HQ meio desprovida de "emoção". O quadrinista francês "só" descreve o que acontece no restaurante L'Arpège, do chef Alain Passard, em Paris. Não há histórias interessantes nem engraçadas nem emocionantes, e o autor também não comenta exatamente o que está sentindo enquanto acompanha a equipe do chef na cozinha (mas desenha coraçõezinhos ao redor de si mesmo quando a comida está muito boa - sim, o quadrinista tem a sorte de poder provar vários pratos no L'Arpège!).

    Christophe Blain

    O livro também contém receitas do chef Alain Passard, devidamente ilustradas por Blain.

    Alain Passard (segurando provavelmente um prato de "Coquilles Saint Jacques")

    O chef na versão de Blain

    Apesar de não ter gostado muito do livro em geral, gostei do traço do Blain e do fato de as receitas serem ilustradas - é ótimo para quem não entende direito as orientações apenas escritas!


    Sobre o restaurante L'Arpège, seu cardápio é constituído mais por vegetais, que é a especialidade do chef, além de vegetais "in natura" serem deixados como enfeites sobre as mesas dos clientes. O quadrinista, inclusive, foi visitar dois "jardins de cultivo" de Alain Passard, um na Normandia e outro em Sarthe - ambos na região norte da França. Nesses jardins são cultivados vários tipos de vegetais, que são colhidos e logo servidos no restaurante - e também vendidos para restaurantes próximos, pois há excedente.




    Depois de ler essa HQ, é possível ter ideia de como um restaurante luxuoso funciona. Também procurei comentários de quem já comeu no L'Arpège e as opiniões divergem, mas a maioria diz gostar do local - elas podem ser lidas aqui no TripAdvisor, onde também há várias fotos lindas dos pratos, tiradas por clientes. Quem não gostou, em geral, reclamou do atendimento e também dos preços, que parecem ser exorbitantes. Li um comentário que achei surpreendente: uma das clientes (que odiou o local) disse que os cardápios para as mulheres não vêm com os preços! Por esse detalhe, tive a impressão de se tratar de um restaurante meio ultrapassado. Que outro restaurante tem cardápios sem preços apenas para as clientes mulheres em pleno século XXI?

    De qualquer forma, gostei da proposta do chef Alain Passard, que, pelo que entendi, prima pelo uso de vegetais como os melhores e mais bonitos ingredientes a ser usados na alta gastronomia. E a apresentação dos pratos, em geral, muito colorida, é um espetáculo para os olhos - embora, talvez, a comida seja mais bonita que gostosa.

    Tentei fazer o bouquet de roses, uma "torta secreta" do chef, que a registrou e agora ela aparece com marca registrada ®. Essa receita não está no livro, mas me pareceu bem simples: massa folhada e tiras de maçã. Só que a minha não ficou muito boa - achei que era muita massa para pouco recheio. No entanto, a apresentação ficou bonita! :)



    ***

    Bouquet de roses (torta de maçã com massa folhada)


    Ingredientes:
    Massa folhada
    2 maçãs médias ou 3 pequenas (usei 3 maçãs da Turma da Mônica)
    mel
    canela
    margarina para untar


    Modo de preparo:

    Cortar as maçãs em tiras e cozinhá-las com um pouco de mel até ficarem macias/flexíveis.



    Cortar a massa folhada em tiras (cortei tiras de mais ou menos 6x3 cm).


    Untar a forma (usei uma forma com laterais removíveis, que é bastante prática) e forrar o fundo com um pedaço da massa folhada.


     Colocar as maçãs na massa folhada, enrolar e ir colocando na forma.





     Assar em fogo médio. Precisei deixar 2 horas para a massa ficar dourada.

    Depois de assado, cobrir com mel e polvilhar canela.


    Como sobrou massa folhada, fiz dois salgados com recheio de presunto e queijo que estavam na geladeira e ficaram bons - melhores que essa torta! :)


     ***
    Observação:
    Esse experimento culinário foi interessante porque precisei trabalhar com massa folhada, que eu nunca havia usado antes. Não tem muito segredo, é só moldar, cortar, rechear e colocar para assar. Da próxima vez tentarei fazer diferente. Cortarei cubos de maçã e cozinharei com açúcar e canela. Depois, colocarei em massa massa folhada cortada em retângulos de 20x12 cm (para depois dobrar e formar tortinhas fechadas de 10x6 cm). Aí é só assar e polvilhar um pouco de açúcar com canela sobre elas.

  2. A bolsa amarela

    domingo, 30 de março de 2014

    Título: A bolsa amarela
    Autora: Lygia Bojunga
    Ilustradora: Marie Louise Nery
    Editora: AGIR
    Número de páginas: 116
    Ano de publicação: 1999 (32ª edição / 2ª reimpressão)


    ***

    Este é um livro considerado "infantojuvenil" que li quando era adolescente e adorei. E mesmo agora, como adulta, continuo gostando.
     
     
    É a história da menina Raquel, com quem os membros da família (pais e irmãos mais velhos) parecem implicar e que tem três grandes vontades:

    1. deixar de ser criança;
    2. ter nascido menino;
    3. escrever.

    Quando ela ganha uma bolsa amarela da tia Brunilda (que sempre dava roupas e coisas que já não queria mais para a família de Raquel), ela passa a guardar suas vontades, alguns objetos que vai encontrando e também sua grande imaginação lá dentro. 
     
     
    Ela inventa amigos imaginários, incluindo um galo chamado Afonso, que se torna protagonista de suas histórias e passa a morar/se esconder dentro da bolsa. Além do Afonso, outros seres também habitavam a bolsa, o que mete Raquel em algumas confusões e a faz passar por apuros em um almoço na casa da tia Brunilda.


    Em outra ocasião, quando precisa consertar o fecho da bolsa, vai até uma casa de consertos, onde conhece uma família incrível. Cada um estava concentrado fazendo alguma atividade e depois, de tempo em tempo, eles trocavam de lugar, para não enjoarem de fazer sempre a mesma coisa. 

    Tinha um bolo assando no forno; a casa toda cheirava a bolo. Um cheiro tão bom, que o Afonso, as minhas vontades, o Alfinete, todo o mundo resolveu espiar pela janela pra ver a cara do cheiro.
     
    Alguns fazem uma leitura mais "política" do livro, pois ele foi escrito e lançado em uma época em que o Brasil passava pela ditadura (o copyright que aparece no livro é de 1976), talvez associando a necessidade de Raquel "reprimir" suas vontades com o que acontece em um regime ditatorial (ninguém pode se expressar, precisa reprimir pensamentos e vontades). Mas gosto mais de pensar que é um livro sobre as vontades e o mundo de uma garota esperta, sensível e criativa, que não consegue ser compreendida pelas outras pessoas - que não prestam muita atenção nela, como se o que ela sente e pensa não contasse por ela ser criança, o que me parece muito injusto. No fim do livro, depois de ter vivido várias aventuras, ela já está um pouco mais crescida e é bonito ver essa mudança.

    A Lygia Bojunga escreveu vários outros livros para jovens. Dela, li também O sofá estampado (1980), mas não gostei tanto quanto gostei de A bolsa amarela. Ela nasceu em Pelotas, Rio Grande do Sul, mas se mudou para o Rio de Janeiro quando tinha 8 anos - e, pelo que li, continua a morar (ela tem uma casa chamada Boa Liga). Para saber mais sobre a autora e suas obras, clique aqui.

    Lygia Bojunga

    Para a Raquel, meu bolo de chocolate.

    ***

    Nega maluca (bolo de chocolate)
     
     

    Essa receita uma amiga que conheci por correspondência (ou seja, cartas) há uns vinte anos, a Samia Barbosa, de Urussanga, Santa Catarina, que me mandou. Desde então, só faço esse bolo de chocolate. Obrigada, Samia!

    Ingredientes:
    3 ovos
    2 xícaras (chá) de açúcar
    1/2 xícara (chá) de óleo
    1 c (sopa) de fermento
    1 xícara (chá) de água quente
    1 xícara (chá) de Nescau
    2 xícaras (chá) de farinha de trigo

    Bater os ovos, o açúcar, o óleo e o Nescau. Depois, colocar e bater o trigo e o fermento e, por último, a água quente.

    Demora uns 45 minutos para assar em fogo médio. A massa fica mais líquida que as de outras receitas, mas acho que isso que faz com que o bolo fique fofo.

    Eu faço cobertura com receita de brigadeiro ou, como na foto de hoje, cobri com Nutella e MM's... hmmm...


  3. O som da montanha, de Kawabata

    sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

    Título: O som da montanha
    Título original: Yama no oto
    Autor: Yasunari Kawabata
    Tradutora: Meiko Shimon
    Editora: Estação Liberdade
    Número de páginas: 344
    Publicação no Brasil: 2009


    O livro veio com um bonito marcador do próprio livro:


     ***
    Quando o som parou, ele se sentiu aterrorizado. Teve calafrios ao imaginar que talvez fosse o prenúncio de sua morte.

    Shingo Ogata é quem ouve o som da montanha. Ele é o patriarca sexagenário de uma família que passa por momentos de turbulência: o filho, Shuichi, arranja uma amante e despreza a esposa, Kikuko, que também mora com os sogros; enquanto a filha, Fusako, está se separando de um marido viciado em drogas e provavelmente traficante, que acaba indo morar com as filhas pequenas na casa dos pais.

    Enquanto pressente a morte chegando, Shingo reflete sobre algumas frustrações ao longo da vida: era apaixonado pela bela irmã mais velha da esposa, que havia se casado com outro homem e morreu muito jovem; acabou casando-se com Yasuko, que não era muito graciosa, mas tinha a expectativa de gerar uma filha tão bela quanto a cunhada, o que não aconteceu - Fusako, aos olhos de Shingo, não era bela e não tinha modos, mas ainda tinha a expectativa de que uma de suas netas desenvolvesse algum tipo de beleza; pensa que talvez não tenha criado bem os filhos, principalmente Shuichi, que parece ter um sério desvio de caráter - apesar de pai e filho trabalharem na mesma empresa, em Tóquio, o filho não volta para casa com o pai, pois vai dançar em bailes com a secretária do pai ou encontrar a amante.

    Devido à idade, Shingo se esquece com facilidade de fatos corriqueiros, mas recorre principalmente à esposa, à Kikuko e à secretária, que o ajudam a lembrar. No último capítulo, compartilhamos um pouco da angústia do patriarca: em uma manhã, enquanto se preparava para trabalhar, não se lembra mais de como fazer o nó da gravata, embora tenha feito isso ao longo de quarenta anos, Kikuko tenta ajudá-lo, mas não consegue e acaba chamando a sogra.

    Publicado em 1954, O som da montanha traz características dos anos do Japão pós-guerra, quando o país passa por um período de "ocidentalização": Shingo usa terno para trabalhar, mas kimono em casa; as mulheres estão, aparentemente, se tornando mais independentes (várias vestem roupas ocidentais e trabalham fora, como a secretária de Shingo); no capítulo "O jardim da capital", Kikuko aparece ouvindo Les sylphides, de Chopin; a separação de casais não parece ser um tabu; o uso de aparelhos  como aspirador de pó e barbeador elétrico.

    Yasunari Kawabata

    No mesmo ano de publicação do livro, o diretor Mikio Naruse adaptou-o para o cinema. Vi o filme, lançado recentemente em uma coleção da Folha, "Grandes livros no cinema", mas achei o ritmo um pouco monótono. Para quem não leu o livro, ver o filme talvez seja entediante. O final é diferente do livro, mas igualmente plausível.

    Kikuko e Suichi na capa

    Uma das características da trama que fica muito mais sutil no filme é a ambiguidade da relação entre Shingo e a nora. No livro há uma tensão que permeia toda a narrativa, pois Shingo a vê tanto como uma jovem filha que precisa de ajuda e proteção (que o marido não lhe proporciona) quanto uma mulher bela e amorosa que lhe provoca desejos sensuais (seu cheiro e a maneira como se movimenta, por exemplo). Essa atitude provoca um certo ciúmes em Fusako, filha de Shingo, que uma vez diz explicitamente que o pai trata melhor a nora que ela própria.

     Kikuko e o sogro observam um girassol na casa de vizinhos

     Kikuko com os sogros, Yasuko e Shingo

    Kikuko também apresenta certa ambiguidade, demonstrando um imenso carinho pelo sogro. No capítulo "O jardim da capital", Kikuko convida Shingo para um passeio e uma conversa no parque Shinjuku Gyoen. Ela estava passando alguns dias na casa dos pais, para restabelecer a saúde, mas queria voltar para a casa dos sogros em Kamakura, nas cercanias de Tóquio, e estava sem jeito.


    Shinjuku Gyoen (foto tirada daqui)

    Shingo e Kikuko entraram no gramado e andaram entre os casais em encontro amoroso, mas ninguém deu atenção a eles. Shingo procurou passar longe desses casais.
    No entanto, o que Kikuko estaria pensando? Não eram nada mais do que um velho sogro e a jovem nora que vieram ao parque, mas Shingo não conseguira se adaptar à situação.
    Não dera importância ao telefonema de Kikuko, que marcou o encontro no Shinjuku Gyoen, mas agora que estava ali achava algo estranho.
    ...

    - Se você tem algo a me contar, antes de voltar para casa...
    - Para o senhor? Tenho tanta coisa que gostaria de lhe dizer, mas...


    Ao mesmo tempo que faz um balanço de sua vida e percebe que está, aos poucos, se desligando da vida e se afastando de momentos presentes, Shingo observa a beleza da natureza, que permanecerá inalterada, mesmo quando ele já tiver partido.

    ***

    Somen (macarrão gelado)

    No livro alguns pratos são citados, mas não o somen. Apesar disso, escolhi fazer essa receita, pois temos os dias de verão têm sido extremamente quentes e esse prato gelado combina perfeitamente com o clima. Incrementei a receita com ovos - na receita "tradicional", eles não são usados.



    Ingredientes:

    1 pacote de macarrão para somen (400 g)
    1/2 pacote de kamaboko (massa processada de peixe)
    1/2 pacote de tikuá (massa processada de peixe em formato circular com um furo no centro)
    2 pacotes pequenos de katsuo (peixe seco ralado)
    1 envelope de hondashi
    2 ovos fritos com um pouco de sal, açúcar e Aji-no-moto e cortados em tiras bem finas
    6 colheres (sopa) de shoyu 
    1 pitada de Aji-no-moto
    3 colheres (sopa) de saquê
    250 ml de água para o molho
    cebolinha a gosto
    gengibre ralado a gosto
    Folhas de nori (algas marinha) cortadas em tiras pequenas


    Na embalagem está escrito "Somen" em hiragana :)

    Katsuo (peixe seco ralado)



    Modo de preparo:

    Cozinhar o macarrão por cerca de 3 minutos (como os fios do macarrão são finos, ele cozinha bem rápido), escorrer em água fria e, para mantê-lo gelado, pode-se misturar algumas pedras de gelo a ele.




    Para o molho, misturar a água, o shoyu, o saquê, o katsuo, o hondashi e o Aji-no-moto e deixar ferver. [Também acrescentei um pouco de açúcar nesse molho, para suavizar o gosto do shoyu.] Depois, colocar o molho na geladeira.


    Enquanto isso, preparar e cortar os demais ingredientes.


    Depois, é só colocar o macarrão, o molho e os demais ingredientes em uma tigela (a tigela japonesa apropriada se chama tchawan).



    いただきます.
    Itadakimasu!

  4. Precisamos falar sobre o Kevin

    terça-feira, 28 de janeiro de 2014


    Título: Precisamos falar sobre o Kevin
    Título original: We Need to Talk About Kevin
    Autora: Lionel Shriver
    Tradutoras: Beth Vieira e Vera Ribeiro
    Editora: Intrínseca
    Número de páginas: 464
    Publicação no Brasil: 2012

    Capa antiga (e da qual eu gosto mais):


    A capa atual é igual à capa do DVD do filme, dirigido por Lynne Ramsay e cuja adaptação ficou ótima:


    A autora Lionel Shriver


    Obs: as fotos que ilustram o post são da adaptação do livro para o cinema.

     ***

    Ao ler Precisamos falar sobre o Kevin, lembrei de uma entrevista com o José Saramago que li faz tempo (e que tentei localizar pelo Google, mas sem sucesso), em que ele comentava o seu Ensaio sobre a cegueira e dizia que, desde muito tempo, as mulheres carregam o peso do mundo e que a protagonista, a mulher do médico, representava um pouco isso - ela carregava o peso de enxergar num mundo em que todos estavam sendo tomados por uma epidemia de cegueira.

    Em Precisamos falar sobre o Kevin, Eva Khatchadourian, carrega o peso de ser a mãe do Kevin ao qual o título remete, um adolescente de 15 anos que comete uma chacina em seu colégio. Não estou estragando o fim - na contracapa os leitores já têm essa informação -, na verdade, esse é o ponto de partida do livro.

    A brilhante Tilda Swinton fez o papel de Eva na adaptação para o cinema

     Eva tenta continuar a vida enquanto aguarda ser entrevistada para trabalhar em uma agência de viagens

    O livro é escrito em forma de cartas, de Eva para o marido Franklin, e vai de 8 de novembro de 2000 a 8 de abril de 2001, e, por meio delas, descobrimos como era o mundo daquela família, antes e depois do nascimento de Kevin e também durante a gestação.


    Aparentemente, Eva não estava 100% segura de que queria ser mãe. Depois que tudo aconteceu, ela fez lista com as razões pelas quais não se animava em ter filhos, reproduzida no fim desse post. 

    Apesar do drama vivido pela mãe, o tom da narrativa não é meloso, repleto de choros, culpas e arrependimentos; pelo contrário, essa mãe vai recapitulando vários episódios de sua vida, enquanto descreve o pesadelo em que foi lançada depois do ato criminoso do filho e, racionalmente, tenta encontrar indícios de que aquilo aconteceria.

    No início não fica claro se Eva implicava com Kevin por ele ter nascido e ser um "estorvo" em sua vida ou se realmente havia algo de muito errado com ele desde o começo. Antes, ela era uma executiva de sucesso, dona de uma editora e que viajava o mundo inteiro, a fim de checar informações de hospedagem, entre outras, para inserir nos guias de viagem que publicava, tinha uma vida bastante ativa e, depois do nascimento de Kevin, passou a ser principalmente mãe. Talvez não uma "mãe exemplar" e amorosa, mas uma mãe eficiente, que atendia (ou pelo menos tentava atender) a todas as necessidades do filho - estimulando-o com atividades criativas, apesar de ele ser desinteressado e apático, dando-lhe comida, trocando suas fraldas, mesmo quando ele já tem uns 6 anos.

    Tilda Swinton (Eva) e Rock Duer (Kevin criança)

    Quando era bebê, Kevin chorava muito quando estava apenas com a mãe, mas se mostrava uma criança muito bem comportada na presença e no colo do pai. Um trecho bastante marcante é quando ela leva o Kevin para passear no carrinho de bebê e para ao lado de uns homens trabalhando com britadeiras e sente um imenso alívio, porque aquele barulho parece ser muito mais suportável que o choro incessante do filho. Depois bate a culpa, ela fica preocupada e o leva ao médico para saber se ele tem algum problema de audição.


    Eva e Kevin em diferentes fases

    Conforme vai crescendo, o nível de maldade parece aumentar sob os olhares preocupados da mãe e a cegueira crônica do pai, que sempre o defende. (Será mesmo possível que haja pais - e mães - tão patéticos?) Ao se mudarem para uma casa em um bairro chique, escolhida por Franklin, para que Kevin tenha mais espaço para brincar, Eva se sente deslocada - ela julga o imóvel de mau gosto extremo, mas não comenta nada com o marido, que, aparentemente, queria fazer uma surpresa para ela, comprando a casa dos sonhos da família feliz. Para tentar diminuir a sensação de estranhamento dentro da própria casa, Eva decora um cômodo parar servir de escritório, cola mapas, fotos e demais lembranças de suas andanças pelo mundo e, quando termina o trabalho e sai um minuto para atender o telefone, Kevin usa sua metralhadora de esguichar água para esguichar tinta nas paredes e no teto do ambiente. Eva fica perplexa e devastada - ainda mais quando o pai, ao saber disso, comenta que Kevin devia estar só brincando.


     Jasper Newell no papel de Kevin criança (ele é ótimo!)

    Um trecho bastante interessante é quando Eva conta sobre a única vez em que Kevin ficou doente, de cama, por cerca de uma semana, e parecia outro menino: tinha vontades e comportamentos que nunca haviam se manifestado antes - preferência por um determinado pijama, queria comer comida armênia preparada pela mãe, sentia prazer quando a mãe lia para ele na cama e pediu desculpas ao vomitar no chão do quarto. No entanto, quando ele melhora, volta a ser o menino de antes. Com a diferença de ter se interessado por arco e flecha, talvez seu único interesse na vida, depois de a mãe ter lido Robin Hood para ele.

    Talvez por se sentir isolada dentro da própria casa ou para se dar uma chance de tentar ser uma "mãe melhor", Eva engravida novamente e Franklin não gosta da ideia - tanto que mostra um total desinteresse pela criança que está por vir e, dessa vez, não há discussões acaloradas, como as que tiveram antes do nascimento de Kevin (em relação ao nome que dariam a ele, todo o cuidado que ele tinha com a esposa grávida, que sobrenome a criança teria - Kevin acabou ficando com o sobrenome de origem armênia da mãe, depois de muita discussão). Já era um indício de que a relação do casal não ia e, depois do nascimento de Celia, uma menina doce e amorosa, por quem Eva nutria um amor incondicional, essa relação parece piorar, assim como o nível de maldade de Kevin, que tratava a irmã como retardada, apesar de ela demonstrar gostar muito dele.



    Eva e Franklin (John Reilly)

    Na adolescência, Kevin continua praticando arco e flecha e seu desempenho melhora bastante. A prática continua sendo um de seus únicos interesses.

    Ezra Miller como Kevin adolescente


    Ao longo do livro, que tem muito mais detalhes e nuances que o filme, fui tirando algumas conclusões pessoais e questionamentos:

    - as pessoas não deveriam ter filhos, a não ser que estejam 100% certas de que realmente querem isso e estejam dispostas a abrir mão de uma série de coisas, incluindo, possivelmente, carreira, passeios, viagens, leitura, uma vida com mais conforto (uma vez que as crianças absorverão boa parte da renda familiar durante 20 ou 30 anos) e vida própria;

    - os pais nem sempre são responsáveis pelo mal comportamento dos filhos (embora meu pai tenha dito há muito tempo: "quando uma criança se comporta mal, as pessoas procuram saber imediatamente quem são os pais [que não a educou direito]");

    - é possível detectar a psicopatia dos filhos desde pequenos? E o que pode ser feito em relação a isso?

    - os filhos percebem quando não são realmente desejados, apesar da (aparente) dedicação que seus pais demonstram?

    - ter filhos significa ter mais prazeres ou mais preocupações e frustrações?

    Mas também concluo que não existem conclusões corretas e nem respostas únicas. Cada filho é único, assim como será única a relação que ele terá com os pais.

    Um dos melhores livros que já li e a melhor adaptação para o cinema que já vi. Recomendo muito o livro e o filme.

    Trecho do livro:

    Caso eu tivesse enumerado as desvantagens da procriação, "filho pode acabar sendo assassino" jamais teria aparecido na lista. Na verdade, ela teria sido algo mais ou menos assim:

    1. Pentelhação.
    2. Menos tempo só para nós dois. (Que tal tempo nenhum só para nós dois?)
    3. Os outros. (Reunião de Pais e Mestres. Professores de balé. Os amigos insuportáveis das crianças e seus insuportáveis pais.)
    4. Virar uma vaca gorda. (Eu era esbelta e preferia ficar como estava. Minha cunhada teve varizes durante a gravidez, aquelas veias enormes nas pernas dela nunca mais desincharam, e a perspectiva de ver minhas panturrilhas se ramificando em radículas azuis me torturava mais do que eu poderia admitir. De modo que não admiti nada. Sou vaidosa, ou já fui um dia, e uma de minhas vaidades era fingir que eu não tinha vaidade.)
    5. Altruísmo artificial: ser forçada a tomar decisões segundo o que é melhor para uma outra pessoa. (Eu sou pavorosa.)
    6. Redução nas minhas viagens. (Note que eu disse redução. Não fim delas.)
    7. Tédio enlouquecedor. (Eu achava criança pequena uma chatice inominável. E, desde o princípio, sempre admiti isso para mim mesma.)
    8. Vida social imprestável. (Nunca consegui ter uma conversa decente na presença de crianças de cinco anos na sala.)
    9. Rebaixamento social. (Eu era uma empresária respeitada. Assim que eu aparecesse com uma criança a tiracolo, todos os homens que eu conhecia - e todas as mulheres também, o que é deprimente - deixariam de me levar tão a sério.)
    10. Arcar com as consequências. (Procriar é saldar uma dívida da qual se pode escapar indica que as mulheres sem filhos escapam impune e furtivamente. Além do mais, de que adianta pagar uma dívida para o credor errado? Só a mais desalmada das mães poderia se sentir recompensada da trabalheira ao ver a própria filha levando finalmente uma vida tão horrenda quanto a sua.)
    p. 38-39

    Em várias passagens, comidas armênias são citadas, entre elas, o lahmajoon, receita escolhida para este post.

    ***

    Lahmajoon (Pizza armênia)


    [Misturei várias receitas encontradas na internet e cheguei a esta.]

    Ingredientes:

    500 g de carne moída
    1 pimentão verde picado
    1 tomate picado
    1 cebola pequena picada
    2 dentes de alho picados
    1 colher (sopa) de extrato de tomate
    1/2 lata de tomate pelati
    alguns ramos de salsinha picada
    sal e pimenta-do-reino a gosto

    Discos de pão sírio ou "Rap10"





    Modo de preparo:

    Picar o alho, a cebola, o pimentão e o tomate.


    Colocar todos os ingredientes em uma vasilha e misturar.



    Acrescentar o sal e a pimenta-do-reino a gosto e misturar mais um pouco.

    Essa cobertura deverá ser colocada sobre a massa de pão sírio ou "Rap10".



    Colocar no forno médio preaquecido por cerca de 20-25 minutos ou até a carne ficar bem assada. Pode ser servido com rodelas de limão para ser espremido sobre o prato.