Rss Feed
  1. O Clube do Picadinho

    domingo, 28 de julho de 2013


    Título: O Clube dos Anjos
    Autor: Luis Fernando Verissimo
    Editora: Objetiva
    Número de páginas: 130
    Ano de publicação: 1998
    ***

    O Clube dos Anjos faz parte da coleção Plenos Pecados, publicada pela Editora Objetiva entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, e cada volume aborda um pecado capital, sendo que o Verissimo foi incumbido de escrever uma história em torno da gula, meu pecado favorito.

    Livros da série Pecados Capitais

    O livro é escrito pelo narrador-personagem Daniel, único sobrevivente dessa história de suspense e humor e, logo nas primeiras páginas, já tenta convencer o leitor de que é inocente.

    Daniel namora Lívia, nutricionista e psicóloga, que não gosta muito dos amigos do namorado que fazem parte "Clube do Picadinho", cujos integrantes têm a mesma idade, são mais ou menos ricos e se reúnem para comer e beber. Lívia tentará convencer o namorado a parar com os jantares mensais quando descobre que os integrantes estão morrendo.

    Minha namorada, a coitada da Lívia, sempre diz que eu nunca sei de quanto espaço preciso, e que isso vem de uma infância de gordo mimado. Algo a ver com ser um filho único que nunca conheceu limites. A coitada da Lívia é psicóloga e nutricionista, há anos tenta me salvar.

    O "Clube do Picadinho", formado por dez amigos com nomes bíblicos (Samuel, Ramos, Pedro, Paulo, Saulo, Marcos, Tiago, João, Abel e Daniel), era uma homenagem ao picadinho que comiam no bar do Alberi. O número de componentes do grupo era sempre dez; quando Ramos, o fundador do clube, morreu de Aids, André o substituiu.

    De reuniões quase diárias no bar do Alberi, na adolescência, e do picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita do Alberi que durante anos definiu o nosso gosto culinário, tínhamos progredido para jantares semanais em restaurantes diferentes, depois para reuniões mensais na casa de cada um.

    Daniel e Lucídio se conhecem "por acaso" em uma importadora de vinhos em um shopping e, por alguma razão, os dois vão tomar café e conversar. Nessa conversa, Daniel conta sobre o Clube do Picadinho e Lucídio o ouve com atenção, além de contar que faz parte de uma sociedade secreta que se reúne uma vez por ano no Japão para comer fugu, um peixe venenoso que pode matar se não for preparado com o devido cuidado. Essa história desperta o interesse e a simpatia de Daniel.

    Quando fica sabendo que Daniel será o próximo anfitrião a oferecer o jantar do Clube do Picadinho, Lucídio se oferece para ajudá-lo. Combinam que o prato a ser oferecido será boeuf bourguignon, um dos pratos que Lucídio aprendera a fazer quando morou em Paris, o preferido de Abel. 

    No dia do jantar, depois dos canapés e dos fundos de alcachofra, foi servido o boeuf bourguignon preparado por Lucídio, o que foi apreciado e elogiado por todos, especialmente Abel, que não recusou a última porção oferecida pelo cozinheiro. 

    - Eu só quero dizer uma coisa, Daniel. Sobre o seu jantar.
    Ficamos na expectativa. Abel enfatizou bem cada palavra.
    - Puta que os pariu!
    Todos aplaudiram. [...]

    Foi o último discurso que Abel fez, pois morreu naquela mesma noite.

    Lucídio continuou preparando os pratos dos jantares seguintes (paella, canard à l'orange, quiches, blanquette de veau, suflês, crepes com caviar...) e sempre um integrante do clube morria. Era sempre o que pedia a última porção que sobrava.

    O fim é rocambólico e eu não gostei muito. Talvez por ter sido um livro encomendado o Verissimo não conseguiu fechar de um jeito mais criativo ou talvez porque finais de livros de suspense humorístico não precisem ter muita coerência e nem ser verossímil mesmo.

    O mais engraçado do livro é que, mesmo desconfiando de que estavam sendo envenenados, os integrantes do Clube não queriam abrir mão dos jantares. Queriam ter o prazer de comer e beber bem, mesmo que fosse a última vez.

    Segundo Francine Prose (Gula, Coleção Sete Pecados Capitais, Editora Arx, 2004), a gula e a luxúria eram considerados pecados pela Igreja, pois estavam associados a prazeres dos sentidos - era aceitável comer para alimentar o corpo e fazer sexo para procriar, mas essas atividades não deveriam envolver prazer.

    Também havia a crença de que a gula poderia incitar os fiéis a cometerem os demais pecados, por isso, deveria ser evitada.

    A indulgência excessiva era convite fácil à luxúria, ira e preguiça. Em outras palavras, as seis filhas surgem em nosso comportamento quando estamos embriagados ou recheados de comida, quando comemos tanto que atingimos um estado de consciência - ou inconsciência - no qual paramos de pensar racionalmente e começamos a agir de maneiras que parecem melhor vistas do interior que do exterior. (Prose; p. 24-25)

    Para finalizar, uma curiosidade: a fim de contrapor os sete pecados, os teólogos cristãos classificaram as Sete Virtudes Celestiais - as cardinais: Prudência, Temperança, Justiça, Coragem, e as teológicas: Fé, Esperança e Caridade.

    Os outros seis títulos que compõem a Coleção Plenos Pecados são:

    Mal Secreto, de Zuenir Ventura (Inveja)
    Xadrez, Truco e outras Guerras, de José Roberto Torero (Ira)
    A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro (Luxúria)
    Canoas e Marolas, de João Gilberto Noll (Preguiça)
    Terapia, de Ariel Dorfman (Avareza)
    Voo da Rainha, de Tomás Eloy Martínez (Soberba)

    ***

    Picadinho de carne com legumes e purê de inhame

    Preparei essa receita em homenagem ao passado dos integrantes do Clube do Picadinho. Mas substituí a farofa de ovo e a banana frita por um purê de inhame.
    As receitas foram tiradas daqui.


    Picadinho

    Ingredientes:
    3 colheres (sopa) de óleo
    1 cebola picada
    600 g de carne cortada em cubos bem pequenos [não sei a diferença entre as carnes, mas usei coxão mole, pois vi em um site que era uma das carnes ideais para esse prato; outra opção é o acém]
    150 g de vagem picada
    1 cenoura grande picada
    1 lata de milho escorrida [usei meia lata]
    ½ xícara (chá) de caldo de carne
    Sal e pimenta a gosto
    Salsa picada a gosto [não usei]

    Modo de preparo:
    Em uma panela, aqueça o óleo e doure a cebola. Junte a carne e mexa sem parar, até dourar. 



    Acrescente a vagem, a cenoura, o milho e deixe refogar por 2 minutos, mexendo sempre para não grudar. Acrescente o caldo de carne, se necessário o sal, a pimenta e deixe cozinhar no fogo brando, com a panela tampada, até a carne e os legumes ficarem macios.


    Purê
    [fiz metade dessa receita]


    Ingredientes:
    1 kg de inhame
    4 xícaras (chá) de leite
    4 colheres (sopa) de manteiga
    Sal a gosto
    Salsa picada a gosto [não usei]

    Descasque e cozinhe na água os inhames até ficarem bem macios. Escorra-os e, ainda quentes, passe no espremedor. Em uma panela, coloque o inhame, o leite, a manteiga e o sal. Cozinhe por 4 minutos, mexendo sem parar. Salpique a salsa e sirva com o picadinho.

  2. Guia Gastronômico das Favelas do Rio

    domingo, 30 de junho de 2013

    Título: Guia Gastronômico das Favelas do Rio
    Concepção e edição: Sérgio Bloch
    Textos: Ines Garçoni
    Fotos: Marcos Pinto
    Editora: Arte Ensaio
    Número de páginas: 170
    Ano de publicação: 2013
    ***

    A ideia para o inusitado Guia Gastronômico das Favelas do Rio surgiu há alguns anos, quando o diretor Sérgio Bloch realizava filmagens para um documentário em algumas favelas recém-pacificadas do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe gastavam muito tempo na hora do almoço, pois saíam das favelas para fazer as refeições, então começaram a procurar restaurantes nas próprias comunidades.


    Para o livro foram selecionados 22 estabelecimentos gastronômicos de oito favelas (Morro da Providência, Santa Marta, Tabajaras, Chapéu Mangueira/Babilônia, Vidigal, Rocinha, Morro dos Prazeres e Complexo do Alemão), sendo que um dos critérios adotados para a seleção foi que os donos tivessem histórias interessantes para contar, além de as comidas serem boas - pelas fotos, todas dão água na boca!

    Na abertura dos capítulos há um resumo histórico da favela onde os estabelecimentos a ser apresentados estão localizados. No histórico do Morro da Providência, no centro do Rio, por exemplo, ficamos sabendo que a demolição de cortiços naquela região, devido à política higienista ocorrida em 1893 (cortiços foram demolidos a fim de combater doenças), fez com que moradores buscassem alternativas de moradia nas encostas. E, em 1897, aos ex-moradores dos cortiços se juntaram soldados que haviam voltado da Guerra de Canudos - a quem o governo havia prometido moradia caso ganhassem a guerra (promessa que não foi cumprida). Foi nessa época que surgiu a designação "favela", em referência à semelhança do tal morro a um morro próximo de Canudos chamado Favela, base dos soldados durante a guerra.

     Versão em inglês sobre o Morro da Providência no final do livro

    Também achei interessante o fato de a Rocinha (Zona Sul), favela mais populosa do Rio, já ter sido, de fato, uma "rocinha" nos anos 1930. Ali eram plantadas hortaliças, aipim, abóbora, bananeiras e outros alimentos e também se criava animais.
    Depois do breve histórico de cada comunidade, surgem histórias de empreendedorismo e criatividade de personagens interessantes e carismáticos, como a de Glimário, que saiu do Recife, arranjou um emprego em um restaurante no Rio e, depois de dezessete anos, abriu um restaurante na Rocinha, onde serve carnes de vários animais "exóticos", entre outras, de javali, capivara, avestruz, rã, jacaré e coelho.



    Tem também a Adriana, a "moça da empadinha", que parodia e canta letras de funk enquanto anuncia suas empadas. Ela até participou (como ela mesma) da novela Salve Jorge, ambientada no Complexo do Alemão - aliás, o "alemão" que deu nome à comunidade, na verdade, era um polonês que chegou ao Rio fugindo da Primeira Guerra Mundial nos anos 1920, Leonard Kaczmarkiewicz.

    Além de carnes exóticas e empadinha, o Guia também indica onde encontrar batida de Halls, feijoada, comida japonesa, comida nordestina, cachorro-quente, tapioca, açaí, frango no bafo, sanduíches e pizzarias.

    Na Pizzaria Elite, na comunidade Tabajaras, na Zona Sul, o cearense Antonio Claudio e a esposa, Arlete, servem 50 sabores de pizza com nomes de países, que foram escolhidos aleatoriamente. A massa é fina e crocante e ele diz que tem um segredo para fazê-la, mas não o revela, é claro.


    Já Silvania serve 35 tipos de pizza no Complexo do Alemão e diz que a mais pedida é a Carioquinha (presunto, calabresa, bacon, cebola e orégano). Apesar de servir refeições no almoço e no jantar, como pratos feitos com mocotó, frango assado e grelhado, nhoque à bolonhesa, e vender pães com recheios diversos, e de seu restaurante se chamar "Silvania Bolos", a preferência da maior parte do público é mesmo pelas pizzas.


    O livro tem capa dura, fotos muito boas, além de um ótimo projeto gráfico. Esse livro para mim foi uma descoberta e uma grata surpresa. Deu vontade de provar a comida de todos os lugares indicados.

    ***

    Pizza vegetariana e pizza de chocolate, morango e kiwi
    com massa caseira


    Acredita-se que a história da pizza começou com os fenícios, três séculos antes de Cristo, quando eles acrescentavam uma cobertura de carne e cebola ao pão, parecido com o pão sírio (redondo e achatado). Os turcos também adotaram o alimento, mas preferiam a cobertura com carne de carneiro e iogurte. Durante as Cruzadas, no século XI, o pão turco foi levado para o porto de Nápoles, na Itália, onde a receita foi aperfeiçoada até chegar à forma como a conhecemos e chegou ao Brasil graças a imigrantes italianos. [Obrigada, italianos, por essa comida maravilhosa!]
    Uma curiosidade: o Dia da Pizza é comemorado no dia 10 de julho.

    A receita da massa abaixo é da minha mãe e a medida dá para uma pizza grande uma pequena. Para duas pizzas grandes, o ideal é fazer uma receita e meia.

    Ingredientes para massa:
    25g de fermento biológico (em tablete ou em pó)
    300g de farinha de trigo
    1/2 xícara (chá) de óleo
    1/2 xícara (chá) de leite morno
    1 ovo
    sal (a gosto)

    Modo de preparo:
    Dissolva o fermento no leite e misture o restante dos ingredientes. Deixe a massa descansar por 15 minutos. 
    Depois de descansar, a massa dobra de tamanho!
    Abra a massa do tamanho da assadeira. Unte a assadeira com um pouquinho de óleo. 
    Pode-se forrar a mesa para que ela não fique engordurada...



    Coloque a massa na forma, fure com garfo e leve para assar em forno pré-aquecido. Quando estiver assada (aproximadamente 20 minutos), cubra com a cobertura de sua preferência.
     
    Ingredientes para cobertura salgada (vegetariana):
    Molho de tomate:
    Pode-se usar molho pronto ou (o melhor) preparar o molho batendo 2 tomates e um pouco de água no liquidificador e depois levar ao fogo, acrescentando um pouco de sal, açúcar, orégano e manjericão. Ou, ainda, pode-se fazer o molho fresco e depois acrescentar um pouco de molho pronto para dar um pouco mais de cor (dessa vez, usei a terceira opção).
     Demais ingredientes:


    250g de brócolis cozido e refogado
    2 dentes de alho
    1/2 cebola
    1 vidro de palmito
    1 vidro pequeno de champignon
    4 ovos cozidos
    azeitonas picadas a gosto
    100g de queijo mussarela

    Modo de preparo:
    Frite o alho, acrescente a cebola e refogue o brócolis (previamente cozido). Acrescente o palmito, o champignon e as azeitonas picados e, por último, o ovo também picado. Acrescente sal e outros temperos a gosto.
    Cubra a massa (previamente assada) com o molho, coloque as fatias de queijo mussarela e, depois, os demais ingredientes.


    Deixe assar por aproximadamente 15 minutos.

    Ingredientes para cobertura doce (chocolate, morango e kiwi):
    1 barra (200g) de chocolate ao leite ou meio amargo
    1/2 lata de creme de leite
    1/2 caixa de morangos
    2 kiwis

    Modo de preparo:
    Pique/rale a barra de chocolate e leve ao banho-maria até derreter.


    Acrescente meia lata de creme de leite e mexa até obter uma consistência cremosa e homogênea.

    Cubra a massa com o creme de chocolate e depois acrescente o morango e o kiwi picados.


    Deixe assar por aproximadamente 15 minutos.

  3. Sobre coelhinhos e empanadas em Buenos Aires

    segunda-feira, 27 de maio de 2013


    Título: Bestiário
    Título original: Bestiario
    Autor: Julio Cortázar
    Tradutor: Remy Gorga Filho
    Editora: Círculo do Livro
    Número de páginas: 136
    Ano de publicação no Brasil: não consta

    Edição argentina [à esquerda da foto]:
    Editora: Alfaguara
    Número de páginas: 149
    Ano de publicação: 2001

    ***

    O melhor conto que já li na vida se chama Carta a uma senhorita em Paris e consta no livro Bestiário, escrito pelo argentino Julio Cortázar em 1951, quando ele tinha 37 anos.

    Li este conto pela primeira vez quando tinha 16 anos e fazia uma oficina literária promovida pela prefeitura de São José dos Campos, por convite da minha tia, que também participou da oficina. Eu era uma das pessoas mais jovens da turma e para mim foi tudo muito novo e enriquecedor. Ao longo do curso, que durou um ano, conheci e li vários autores importantes (Borges, Shakespeare, Maiakovski, entre outros), tive algumas orientações sobre criação literária e produzi alguns textos. Um dos meus sonhos é fazer esta oficina literária para voltar a escrever e produzir textos de qualidade.

    Carta a uma senhorita em Paris é um conto epistolar escrito por um homem que vai morar por um tempo no apartamento de sua amiga Andrée, que está em Paris. O apartamento fica na "calle Suipacha", em Buenos Aires, e me surpreendi ao saber que esta rua realmente existe - quando fui para lá, no começo dos anos 2000, de repente vi uma placa com esse nome.

     Foto tirada daqui

    Tudo correria normalmente, se não fosse pelo fato de o amigo da Andrée vomitar coelhinhos, que, segundo o narrador-personagem, "não é motivo para não viver em qualquer casa, não é razão para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e andar se calando".  Logo ao chegar ao prédio, no elevador, ele vomita um.

    "Ao passar o terceiro andar o coelhinho se mexia em minha mão aberta. Sara esperava em cima, para ajudar-me a entrar com as malas... Como explicar-lhe que um capricho, uma lojinha de animais? Envolvi o coelhinho em meu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando o sobretudo solto para não espremê-lo. Mal se mexia. Sua miúda consciência devia estar revelando fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço morno."

    Ele havia decidido matar os coelhinhos quando nascessem para que não o atrapalhassem durante o tempo em que fosse morar no apartamento da amiga, mas não conseguiu.

    Com o passar do tempo, ele vai vomitando outros coelhinhos e os esconde em um armário no quarto onde está hospedado, o quarto da amiga, para que a criada não os veja. De madrugada, deixa-os sair e os alimenta com trevos. Às vezes os coelhinhos estragam objetos no apartamento (essa é uma das razões pelas quais o amigo escreve a carta, porque acha justo informá-la sobre o que aconteceu).

    "Faço o que posso para que não destroçem suas coisas. Roeram um pouco os livros da prateleira mais baixa, vocês os encontrará escondidos para que Sara não note."

    Algumas páginas depois disso, Cortázar finaliza o conto.

    Uma característica interessante no apartamento de Andrée é que ela possui livros em idiomas diferentes e dicionários, o que indica que ela pode ser tradutora ou, pelo menos, que trabalha com idiomas diferentes. Já o amigo que ela hospeda parece ser tradutor mesmo.

    "Para mim é duro entrar em um ambiente onde alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, de outro em francês e inglês) [...] Como é condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la no outro extremo da mesa, pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar."

    " [...] e meu Gide que se atrasa, Troyat que não traduzi [...]"

    Já reli esse conto várias vezes e, apesar de nunca conseguir compreendê-lo (ou talvez por isso mesmo), continua sendo o meu preferido. A minha interpretação é que todos temos "coisas" internas desconhecidas que uma hora ou outra precisam ser externalizadas ou vomitadas. Coisas que às vezes nem imaginamos que existiam e pelas quais podemos sentir ternura em vez de tentar assassinar em nós.

    Para ler o conto na íntegra, clique aqui.

    Para ler o conto original, em espanhol, clique aqui.

    Algumas observações interessantes sobre o tradutor para o português que li aqui: Remy Gorga Filho nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, cursou Direito e trabalhou como jornalista em vários jornais do país e não pretendia ser tradutor. Aprendeu espanhol de forma autodidata, para que pudesse ler literaturas francesa e russa, que estavam mais disponíveis em espanhol. A pedido de um colega de trabalho no Jornal do Brasil, que gostaria de ler contos do Cortázar mas não entendia completamente, Gorga Filho traduziu o conto "Casa Tomada". Foi esse colega que apresentou a tradução para a editora Expressão e Cultura, que aprovou o trabalho e o convidou a traduzir Bestiário - sua primeira tradução publicada. Além de ter traduzido outras obras de Cortázar, também traduziu obras de Mario Vargas Llosa e uma de Gabriel García Márquez. Recebeu duas vezes o prêmio de tradução da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi o primeiro tradutor a pedir e ter seu nome na capa dos livros que traduziu.

    Contos que compõem o Bestiário/Bestiario:

    - Casa Tomada / Casa tomada
    - Carta a uma senhorita em Paris / Carta a una señorita en París
    - A distante / Lejana
    - Ônibus / Ómnibus
    - Cefaleia / Cefalea
    - Circe / Circe
    - As portas do céu / Las puertas del cielo
    - Bestiário / Bestiario
    ***

    Empanadas argentinas

    As empanadas são um prato típico argentino. Elas são vendidas em qualquer lanchonete ou mesmo em mesas abertas na rua - pelo menos em Buenos Aires é assim. São um tipo de pastel de carne assado.

    A receita abaixo é uma adaptação da receita do chef argentino Francis Mallmann e foi tirada deste site: Aprenda a fazer as típicas empanadas saltenhas.


    Ingredientes:

    Massa
    1 xícara de água
    ½ colher de sopa de sal [ou menos]
    2 colheres de sopa de banha de porco de boa qualidade [usei manteiga, porque não encontrei banha]
    3 a 4 xícaras de farinha de trigo

    Recheio
    1 batata média, descascada e cortada em cubos de 1 cm
    250g de carne bovina moída
    Sal grosso e pimenta-do-reino moída na hora
    Azeite de oliva extravirgem
    1 cebola média, cortada em quartos e depois em fatias muito finas
    4 cebolinhas em fatias finas
    ½ colher de sopa de páprica picante
    ½ colher de chá de cominho em pó
    2 ovos grandes cozidos, picados grosseiramente

    Obs: se preferir, separe uma gema para passar sobre as empanadas

    Modo de preparo - Massa
    Para a salmoura, coloque para ferver em uma panelinha, em fogo forte, a água com o sal. Acrescente a banha de porco e mexa até derreter, depois, coloque em um recipiente grande e largo. Deixe esfriar à temperatura ambiente.
    Misturando com a mão, junte aos poucos de 3 a 4 xícaras de farinha, uma de cada vez, até que se possa formar uma bola com massa. Espalhe ½ xícara de farinha sobre a superfície de trabalho para que a massa não grude, e sove, acrescentando farinha até que não absorva mais. A massa deve ficar bastante dura e sequinha. Divida a massa ao meio, abra até uma espessura de 3 mm ou menos, corte com cortador de massa ou com a ajuda de um pratinho em discos de uns 12 cm de diâmetro e envolva em filme plástico. Deixe esfriar pelo menos por uma hora, ou até 24 horas (a massa também pode ser congelada, bem embrulhada, por até um mês).





    Modo de preparo - Recheio
    Cozinhe os cubos de batata e os ovos. Reserve.
    Coloque o azeite na frigideira e depois a cebola. Deixe dourar e depois acrescente a carne moída, os temperos e, por último, a cebolinha picada.


    Depois disso, acrescente a batata e os ovos picados.


    Estique a massa e monte as empanadas.


    Se preferir, passe um pouco de gema sobre as empanadas antes de levá-las ao forno. 
    [Note que algumas estão "deformadas" - no começo não consegui acertar na forma, mas depois, com um pouco de prática, consegui "formatar" melhor.]


    Asse por cerca de 30 minutos ou até as empanadas ficarem douradas.


    ¡Buen apetito!



  4. A cozinha da revolução

    domingo, 31 de março de 2013

    Título: A Cozinha da Revolução
    Título original: The Noodle Maker
    Autor: Ma Jian
    Tradutora (a partir da edição em inglês): Heloísa Mourão
    Editora: Record
    Número de páginas: 254
    Ano de publicação no Brasil: 2011
    ***
    Nesta sátira política, dois amigos chineses, um escritor e um doador de sangue, se encontram ocasionalmente para jantar e conversar. A refeição parece sempre ser paga pelo doador de sangue profissional, uma vez que sua profissão é melhor remunerada que a do escritor profissional (escritor de propaganda política).

    Na noite em que a história se passa, os dois comem carne de ganso, enquanto o escritor conta ao doador de sangue que o secretário do Partido lhe encomendou um conto sobre o camarada Lei Feng, um herói nacional, quando, na verdade, ele queria escrever um romance com outros personagens. Ao mesmo tempo, se sente propenso a escrever sobre Lei Feng para entrar para o Grande dicionário de escritores chineses.

    Entre um debate e outro com o doador, que também é meio filósofo, o escritor conta a história de personagens com os quais teve contato (ou talvez isso também faça parte de sua ficção):

    - um empreendedor que, com a mãe, abriu e cuida de um crematório particular, sendo que o forno fora usado anteriormente por alunos de artes/cerâmica de uma faculdade fechada; uma das vantagens de ser cremado no Crematório Enlevados é que os parentes do morto podiam escolher a música a ser tocada enquanto o corpo queimava, incluindo as músicas proibidas pelo governo, que custavam mais caro;

    - Ele é imortal agora - disse o filho. - Não importa se vai para o céu ou o inferno, ele não voltará para cá, principalmente porque conseguiu passar pela vida sem cometer qualquer erro grave. - Ele se aproximou do toca-fitas, desligou "A internacional" e depois colocou uma ária de Salambô sem custo adicional.

    - uma atriz que, por desilusão amorosa, decide fazer de seu suicídio um espetáculo - será devorada por um tigre ao vivo; os ingressos se esgotam rapidamente e entre os espectadores está o pintor por quem ela era apaixonada;

    - Todo sofrimento é criado pelo homem - dizia ela, tentando se consolar. - O sublime estado de confusão só é possível quando o coração está embotado. O suicídio é a única cura permanente para o desespero. - Su Yun se proibiu de pensar em seu nascimento ou sua morte. Sabia que os dois caminhavam em direções opostas, mas apontavam para o mesmo objetivo.

    - uma romancista de sucesso que se casa com o "Velho Hep", editor de uma revista literária que não tinha o mesmo nível intelectual que ela. O marido suporta vários maltratos e humilhações da esposa, até que redescobre sua autoconfiança ao arranjar amantes - ironicamente, trata uma tecelã, sua primeira amante, que o adora, como a esposa o trata; o escritor profissional chegou a dormir com a romancista uma vez;

    - Ninguém neste mundo é feliz de verdade. - O escritor ainda está pensando na romancista e no editor.

    - um escritor de rua, que escreve cartas para camponeses analfabetos que chegam à cidade e, por meio desse ofício, ajuda a impulsionar ou terminar relacionamentos; ele mora em um barracão onde funcionava o Crematório Enlevados, vazio desde que o filho e a mãe desapareceram; em uma noite, o espírito da velha ranzinza o visita (esse é um dos elementos fantásticos do livro) e, depois disso, ele chega à conclusão de que viveu a vida de outras pessoas e não a sua;

    "O homem ganha sabedoria somente por meio do sofrimento. As pessoas que nunca sofreram são incapazes de crescer. A felicidade é uma choupana de madeira que se encontra após uma longa e difícil jornada; as pessoas que tomam o caminho fácil nunca conseguem vê-la. A infelicidade que sofri no passado foi a infelicidade de outras pessoas. Não deixou em mim nenhuma marca."

    - uma moça que corre despida pela rua, depois de ter um tipo de colapso nervoso ao saber que suas colegas de trabalho criticavam seus grandes seios e se sente acabada com isso;

    "O problema não é a morte, mas a vida, e a vida é apenas um ato de resistência; é preciso trincar os dentes e encará-la." [trecho da fala do doador de sangue profissional]

    - um pai que tenta abandonar a filha retardada, para tentar ter um filho que perpetuasse o nome da família - com a Política do Filho Único, por sua filha mais velha ter nascido retardada, ele pôde conceber outro bebê, mas nasceu outra menina e somente no caso de a filha mais velha "sumir", o governo lhe daria a chance de conceber mais um filho;

    - o pintor por quem a atriz suicida era apaixonada que tinha um cachorro falante, o Sobrevivente. O cachorro de três patas vivia no sótão e não poderia ser visto por outras pessoas, caso contrário seria exterminado por causa da possibilidade de transmitir raiva, e conversava com o dono sobre as mazelas da sociedade. Um dia, ao chegar de viagem, o pintor percebe que o cão foi morto e será empalhado pelo museu onde trabalha. O cachorro era um dos personagens mais lúcidos do livro todo.

    - Talvez outros animais sejam igualmente indiferentes ao sofrimento de sua própria espécie, mas duvido que qualquer um deles possa encontrar tantas maneiras de causar dor como os homens encontraram. A mim me parece que o homem é a fera mais vil de todas.

    - Tudo que vocês querem é comer, fazer sexo e ir às compras. Todas essas atividades requerem a participação de outros, não apenas de uma pessoa, mas de um monte delas.Vocês precisam se apinhar em cidades e vilas para escapar do vazio de seus corações.

    Com frequência há referência à Política de Portas Abertas, iniciado por Deng Xiaoping, em 1978, que foi a abertura do país para o mundo, a fim de atrair investidores estrangeiros e alavancar a economia, e percebe-se uma mudança de comportamento em alguns personagens, como, por exemplo, o uso de batom e esmalte pelas mulheres, o anseio das pessoas em comprar produtos importados, cuja venda ainda é meio clandestina, o gosto por "músicas proibidas", mas os problemas de pobreza, burocracias e incoerências políticas persistem.

    Apesar de ter inserido vários elementos da cultura chinesa nas histórias, o autor também alcança o universal ao retratar a morte, o amor, a desesperança, o rancor, a maldade humana.

    Ma Jian nasceu em 1953 em Qingdao, leste da China, e atualmente mora em Londres, com a companheira Flora Drew, tradutora de alguns de seus livros para o inglês, e quatro filhos.

    Uma entrevista com Ma Jian pode ser lida aqui (em inglês).

    ***

    Rolinho primavera e molho agridoce

    Este prato é geralmente servido no Ano-Novo Chinês (também chamado de "Festival da Primavera", daí o nome) e, segundo informações lidas na internet, sua receita surgiu aproximadamente no ano  300.


    Ingredientes:

    Massa
    2 xícaras (chá) de farinha de trigo
    2 xícaras (chá) de água
    sal a gosto
    óleo para fritar

    Recheio
    1/4 de repolho
    1 cenoura
    300 g de frango
    2 tabletes de caldo de galinha
    1 tomate
    1 cebola
    molho de soja (shoyu) a gosto
    óleo para refogar

    * também usei queijo mussarela para rechear alguns rolinhos

    Molho agridoce
    1 xícara (chá) de suco de abacaxi
    2 colheres (sopa) de açúcar
    1/4 xícara (chá) de água
    1 colher (sopa) de maisena
    4 colheres (sopa) de ketchup
    1 colher (sopa) de vinagre
    1 colher (chá) de sal
    corante vermelho

    Modo de preparo:

    Massa

    Bater a farinha, a água e o sal com um fuê, até obter uma massa lisa e deixar na geladeira por aproximadamente 4 horas.


    Depois disso, coloque um pouco de óleo na frigideira, retirando o excesso com um guardanapo, frite a massa, espalhando-a com a ajuda de um pincel para cozinha, para que fique bem fina. Deixar um pouco de massa para servir como "cola" para fechar os rolinhos depois.


    As primeiras massas ficaram meio grossas e feias, mas depois fui pegando o jeito:



    Uma dica é deslocar a frigideira para uma boca sem fogo, espalhar a massa e depois voltá-la para o fogo. Fiz isso para ter um pouco mais de tempo de espalhar a massa antes que ela se solidificasse.

    Reserve.


    Recheio

    Cozinhe o frango (usei peito) em água e um tablete de caldo de galinha.


     Depois que cozinhar, desfie.


    Corte o repolho em tiras finas e rale a cenoura.


    Pique a cebola e o tomate. Esquente o óleo, coloque a cebola e, quando estiver frita, adicione o tomate picado e o outro tablete de caldo de galinha. Em seguida, acrescente o repolho e a cenoura picados e também o frango.


    Também usei queijo mussarela para rechear alguns rolinhos.

    Enrole o recheio na massa.


    Coloque um pouco do recheio escolhido mais para o lado inferior.



    Dobre as duas bordas.


    Enrole todos os rolinhos e, depois, passe o restante da massa nas bordas para colar.


    A lateral do rolinho ficará mais ou menos dessa forma


    Para selar os rolinhos, esquentei a frigideira e deixei ali por alguns minutos, pois só passar o restante da massa na borda não foi suficiente. Com isso, o problema do fechamento foi resolvido.

    Retire os rolinhos da frigideira e reserve-os em um prato. Acrescente óleo e, quando estiver bem quente, frite-os até dourar.


    Molho agridoce

    Misture todos os ingredientes em uma panela e misture até engrossar. Não cheguei a usar maisena porque não tinha, por isso o molho ficou menos grosso, mesmo assim, ficou bom. Pode-se acrescentar um pouco mais dos ingredientes para acertar o gosto (caso o abacaxi esteja azedo, será necessário adicionar mais açúcar, por exemplo).


    Vi partes desses vídeos no YouTube que me ajudaram: este e este (parte 2).

    Também é possível comprar a massa pronta, feita com farinha de arroz, em lojas de produtos orientais, mas ainda não experimentei. É uma alternativa, pois acertar a espessura fina da massa dá um certo trabalho.

    Apesar de ser uma receita bastante trabalhosa (não exatamente difícil), valeu a pena. Minha maior curiosidade era saber como o molho agridoce, que sempre acompanha os rolinhos nos restaurantes, era feito. Agora já sei! :)