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  1. Tomates Verdes Fritos

    terça-feira, 30 de outubro de 2012


    Título: Tomates verdes fritos - No Café da Parada do Apito
    Título original: Fried Green Tomatoes at the Whistle Stop Cafe
    Autora: Fannie Flagg
    Tradutora: Vera Caputo
    Editora: Globo
    Número de páginas: 362
    Ano de publicação no Brasil: 1993 (4ª edição)

    ***
    Depois de reler este livro e rever pela enésima vez o filme, prestando atenção aos aspectos culinários, tive a impressão de que se come bem no Alabama e na Geórgia, estados da região sul dos Estados Unidos, onde a história acontece. Há muitos pratos fritos - e muito calóricos, eu sei -, mas que parecem deliciosos.

    Vi o filme pela primeira vez na década de 1990, quando ainda existiam fitas VHS na locadora. E lembro que no verso do encarte de papel, que aparecia na parte interna da caixa da fita, vinha a receita dos tomates verdes fritos - uma ideia simples, mas muito legal. Vários anos depois, li o livro.

    A autora Fannie Flagg [foto retirada daqui]

    Annie Flagg escreveu Tomates Verdes Fritos na década de 1980 e uma parte da história se passa mesmo nessa época, e a outra, principalmente nas décadas de 1920 e 1930. A narrativa da época mais recente é linear, e os fatos do passado são apresentados sem ordem cronológica pela narradora-personagem Ninny, por um narrador-observador ou por meio de um jornal semanal fictício, O Semanário Weems, escrito por Dot Weems, que também trabalha na agência dos correios de Whistle Stop, Alabama.

    Página do livro com a diagramação do Semanário Weems

    Quando Evelyn Couch, uma dona de casa infeliz, acompanha o marido em uma visita à mãe dele em uma casa de repouso para idosos em Birmingham, Alabama, ela conhece uma senhora octagenária, Ninny Threadgoode, que estava passando uns dias no local para acompanhar uma velha amiga e, depois que tudo estivesse bem, voltaria para sua casa em Whistle Stop. O encontro se dá na sala de espera da casa de repouso, logo depois que Evelyn é expulsa do quarto pela sogra, que vive de mau humor. No começo, Ninny se mostra um pouco inconveniente, puxando conversa e falando sem parar, mas logo prende a atenção de Evelyn ao começar a narrar a história da família Threadgoode, especialmente sobre Idgie Threadgoode e Ruth Jamison.

    Desde criança, Idgie já demonstrava ter vontades e opiniões próprias e era a irmã preferida de Buddy, assim como ele era o seu irmão preferido. Depois da morte dele, quando ela tinha uns 12 anos,  tornou-se arredia, gostava de pescar e andar sozinha pelo mato. Passados quatro anos, com a vinda de Ruth, filha de amigos da família, que cuidaria de assuntos da igreja local por um tempo, isso mudou. Ruth ficou hospedada na casa dos Threadgoode e conseguiu conquistar a confiança de Idgie, que passou a lhe dar ouvidos e a conviver um pouco mais civilizadamente com a própria família. Idgie havia se apaixonado por Ruth e isso foi encarado com naturalidade pela família, o que me soou um pouco inverossímil, pois isso acontece na década de 1920. De qualquer forma, a única coisa que importava para os pais de Idgie é que ela estivesse feliz e voltasse para perto da família. 

    A minha parte preferida do livro (e do filme) é quando Idgie rouba a chave do carro de um dos irmãos e leva Ruth para um piquenique em uma área deserta. Nesse lugar, Idgie pede para Ruth ficar parada,  ela então caminha até uma árvore, enfia a mão e um pote dentro de seu tronco e depois o retira cheio de mel, enquanto muitas abelhas esvoaçam e pousam sobre ela. 

    É engraçado como a maior parte das pessoas pode estar perto de alguém e gradualmente começar a amá-lo, mas jamais saber quando foi que isso aconteceu; mas Ruth sabia exatamente qual fora o seu momento. Foi quando Idgie sorriu e lhe ofereceu o vidro de mel que todos os seus sentimentos ocultos há tanto tempo vieram à tona. Foi aí que ela descobriu que amava Idgie profundamente. Por essa razão começou a chorar naquele dia. Nunca sentira nada parecido e tinha certeza de que jamais voltaria a sentir algo igual.
    [trecho do livro, p. 88]

    "Encantadora de abelhas" [tirado daqui]
    Depois disso, Ruth precisa ir embora para se casar com o noivo em outra cidade, o que deixa Idgie arrasada. Mas, depois de um tempo, Idgie a "resgata", pois fica sabendo que o marido batia nela, e elas passam a morar com os Threadgoode. Como Ruth está grávida, o pai de Idgie lhe dá um dinheiro para abrir um café e diz que, a partir de então, ela seria responsável por cuidar de Ruth e do bebê.
    Quando Buddy Threadgoode Jr., filho de Ruth, nasce, é considerado por todos filho dela e de Idgie, que ajuda a criá-lo. Pouco depois, surge o Café da Parada do Apito, onde elas passam a servir refeições diversas (incluindo tomates verdes fritos e churrasco) e sobremesas.

    Cena do filme
    O fato de venderem comida para os negros (que comem na parte de trás do Café) irritam algumas pessoas e membros da Ku Klux Kan, mas Idgie não se intimida.

    O assassinato do marido de Ruth dá um pouco de suspense à trama, mas o caso se resolve de modo inusitado.

    Evelyn Couch passa a ter prazer em visitar Ninny na casa de repouso, pois tem bastante interesse em saber mais sobre a história dos Threadgoode e também porque a amizade daquela senhora muda sua vida de modo surpreendente ao longo do ano em que elas se encontram.

    O final do livro é um pouco triste. No filme, suavizaram.

    Em um tipo de apêndice no final do livro, há várias receitas, provavelmente típicas do sul dos Estados Unidos. Receitas de Sipsey, uma mulher negra que sempre trabalhou para a família Threadgoode, excelente cozinheira, que Ninny fez questão de passar para Evelyn.

     
    ***
    Um pouco sobre o filme:


    Se forem comprar o DVD, prefiram a "Edição de Aniversário", pois tem o "Making Of" com várias entrevistas com o diretor, com as atrizes e com a autora do livro (que tentou adaptar o roteiro, mas, a certa altura, desistiu). Na outra versão vem escrito Tomates Verdes e Fritos. Esse "e" não existe.


     Diretor do filme, Jon Avnet, saboreando tomates verdes fritos no Whistle Stop Cafe

    O filme foi rodado na cidade de Juliette, na Geórgia (estado vizinho ao Alabama, onde a história do livro acontece), e, depois das filmagens, o Café da Parada do Apito passou a funcionar de verdade, gerando empregos e renda para as pessoas da cidade. O site do Whistle Stop Cafe, nome original em inglês, é este.

    Whistle Stop Cafe atualmente. Foto tirada daqui.


    Whistle Stop Cafe. Foto tirada daqui.
    No filme, imagino que por razões comerciais, a relação entre Idgie e Ruth é velada. Mas, no "Making Of", o diretor comenta que a cena em que as duas personagens fazem uma guerra de comida na cozinha (que não foi ensaiada; ele as deixou improvisar no momento da gravação) é um eufemismo do ato sexual.


    Também na parte do "Making Of" do DVD, a autora do livro afirmou que, quando visitou a locação do filme, se sentiu uma pintora que tinha entrado no próprio quadro. De repente o que era algo da imaginação dela estava lá, tinha se materializado.

    ***

    Tomates Verdes Fritos

      Tomate verde frito, quiabo frito e canjica amanteigada

    Ingredientes:
    2 tomates médios verdes
    1 ovo
    Sal
    Pimenta
    Farinha de milho branca
    Bacon em fatias
    Óleo

    Modo de preparo:
    Corte os tomates em rodelas, tempere-as com sal e pimenta, passe-as no ovo batido e depois na farinha de milho branca.
    Coloque óleo na frigideira e, quando esquentar, acrescente  as fatias de bacon e, depois, as rodelas de tomate. Deixe dourar dois dois lados.

    Observações:
    1. Acabei de descobrir que perdi todas as fotos que tirei durante o preparo das receitas e só me restou esta [acima].
    2. A farinha de milho branca vem em "flocos", é preciso quebrá-la com os dedos para que fique mais fina - para fritar, é melhor.
    3. O bacon é opcional, mas como na versão do livro tinha, resolvi usar.
    4. Acrescentei o ovo à receita do livro, pois cobrir apenas com farinha não ficou bom.

    ***

    Quiabo frito

    Ingredientes:
    Meio pacote de quiabo [aprox. 150g]
    1 ovo
    Farinha de milho branca
    Óleo para fritar

    Modo de preparo:
    Lave bem os quiabos, retire os talos e corte-os em pedaços à gosto [na receita do livro a orientação é cortar no sentido do comprimento, mas cortei de outra forma]. Passe em ovos e depois na farinha de milho.
    Esquente o óleo na frigideira, acrescente os quiabos e espere dourar.

    ***

    Canjica

    Ingredientes:
    2 colheres de sopa de manteiga
    1 colher de chá de sal
    5 xícaras de água fervendo
    1 xícara de canjica

    Modo de preparo:
    Coloque a manteiga e o sal na água fervente. Acrescente a canjica. Tampe e cozinhe em fogo branco por cerca de 40 minutos, sempre mexendo.

    Observações:
    1. Nunca tinha pensado na possibilidade de comer canjica salgada. Até hoje, só conhecia a versão doce, com leite condensado. A versão salgada também é boa.
    2. É preciso mexer mais a canjica quando a água estiver secando, pois começa a grudar no fundo da panela.


  2. Frango, ameixas e a vida

    quinta-feira, 27 de setembro de 2012


    Título: Frango com ameixas
    Título original: Poulet aux prunes
    Autora: Marjane Satrapi
    Tradutor: Paulo Werneck
    Editora: Cia. das Letras
    Número de páginas: 88
    Ano de publicação no Brasil: 2008

    Faço questão de estrear o blogue escrevendo sobre uma HQ (história em quadrinhos) da iraniana Marjane Satrapi, porque devo a ela o fato de hoje eu gostar de ler HQs. Em julho de 2010, descobri Persépolis na Biblioteca São Paulo, peguei emprestado os quatro volumes, devorei tudo e fiquei impressionada. Até então, não sabia que HQ também era ou podia ser literatura; já tinha tentado ler HQs de super-heróis, mas realmente não é a minha praia - me frustra porque não me acrescenta nada. Mas quando li Marjane Satrapi meu limitado pré-conceito sobre HQs se desfez. Por causa dela, depois descobri Guy Deslile, Liniers, Art Spiegelman, Joe Sacco... e quero conhecer todos os quadrinistas que fazem trabalhos autorais.

    Marjane Satrapi. Foto tirada do site da Random House.
    Frango com ameixas é baseada na história de um tio da Marjane, Nasser Ali, que morreu dez anos antes de ela nascer. Em uma briga, a esposa de Nasser Ali quebra seu tar, um instrumento musical típico do Irã, com o qual ele trabalhava desde jovem e pelo qual tinha um amor infinito, pois fora presente de seu grande mestre. 


    A partir desse dia, Nasser Ali perde a vontade de viver. Ele tenta encontrar outro tar perfeito, compra alguns, mas nenhum era bom o suficiente.

    Durante esses dias em que fica trancado no quarto, ele reflete sobre passagens de sua vida, que se mesclam com cenas de um cotidiano agora sombrio. Ele para de comer e, ao fim de dois dias de jejum, pensa em várias comidas gostosas. Seu prato preferido é frango com ameixas, especialidade de sua mãe, já falecida.



    Conforme a leitura avança, descobrimos por que o tar, ou melhor, aquele tar específico que a esposa dele quebrou, era tão importante para ele. É tão bonito quanto triste. Vocês precisam ler a HQ para descobrir o porquê! :)

    Em 2011, vi a adaptação cinematográfica dessa HQ, que a própria Marjane ajudou a dirigir, na 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e gostei do resultado - ao contrário do que possam pensar, não é um filme depressivo, apesar do estado de espírito do protagonista; é um drama com toques de comédia. Antes da sessão, a atriz portuguesa, Maria de Medeiros (eu a conhecia do filme Capitães de Abril), que faz parte do elenco, falou um pouco com a plateia sobre o filme. Comentou que a Marjane queria muito ter vindo ao Brasil, mas como, na época, o filme estava estreando em vários países e ela precisava estar nesses países, não conseguiu vir; falou um pouco também sobre o filme se passar no Irã mas ser falado em francês - quando vemos um filme que se passa em qualquer lugar do mundo e os personagens falam inglês, ninguém estranha, então, por que não fazer um filme que se passa no Irã, mas falado em francês? Partindo dessa ideia, fizeram o filme falado em francês e não achei que ficou inverossímil por causa disso. Muito simpática a Maria de Medeiros!

    Espero que o filme estreie por aqui e fique em cartaz por várias semanas (foi muito disputado na Mostra).

    Trailer do filme:


    ***

    Meu frango com ameixas

    Muitas vezes não sigo as receitas exatamente com elas são e, para preparar este assado, juntei duas receitas - uma do kafka na praia e outra da Tastemag [em inglês].

    Ingredientes:
    6 sobrecoxas
    4 colheres de sopa de mel
    4 dentes de alho amassados
    sal para temperar o frango
    pimenta do reino branca a gosto
    pimenta calabresa (é ardida, usem com moderação!)
    1 colher de azeite
    1/2 lata de ameixas (sem caroço)
    1 xícara de caldo de galinha 
    alecrim

    Modo de preparo:
    Misturar  todos os ingredientes em uma vasilha, exceto o frango temperado com sal. O frango deve ser acrescentado depois. Deixar na geladeira de um dia para o outro.


    Um detalhe é que fiz mais caldo de galinha do que a receita em inglês pedia, porque queria que o frango ficasse imerso - e mesmo assim o tempero não impregnou bem. Da próxima vez farei menos caldo (e mais concentrado) e vou deixar mais tempo marinando.

     Assei em fogo médio-baixo por mais ou menos 1h30 e o resultado foi este:
     


    Prato completo:



    Bon appetit! :)


  3. panis et libris, o começo

    quarta-feira, 26 de setembro de 2012

    Planejei este "restaurante literário" por algum tempo e agora resolvi inaugurá-lo.

    Panis et libris. Porque pão e livro é sempre melhor que pão e circo.

    Não que a ideia de juntar literatura e comida seja superoriginal, mas são duas coisas que me dão imenso prazer e eu gostaria de compartilhar esse prazer. Se um dia eu abrisse um restaurante, ele seria assim: inspirado na literatura (se bem que, depois de ler o livro autobiográfico da chef Gabrielle Hamilton, as leves vontades de estudar gastronomia e abrir um restaurante quase desapareceram). Os nomes dos pratos fariam referência a autores, livros e personagens interessantes que eu gostaria que as pessoas conhecessem.

    A ideia desse blogue é assim: a cada mês vou ler ou reler um livro que tenha a ver com comida (ou não :) e farei uma receita baseada no livro. Falarei sobre o livro, darei a receita e mostrarei fotos do prato.

    Bon appetit!