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  1. Sobre coelhinhos e empanadas em Buenos Aires

    segunda-feira, 27 de maio de 2013


    Título: Bestiário
    Título original: Bestiario
    Autor: Julio Cortázar
    Tradutor: Remy Gorga Filho
    Editora: Círculo do Livro
    Número de páginas: 136
    Ano de publicação no Brasil: não consta

    Edição argentina [à esquerda da foto]:
    Editora: Alfaguara
    Número de páginas: 149
    Ano de publicação: 2001

    ***

    O melhor conto que já li na vida se chama Carta a uma senhorita em Paris e consta no livro Bestiário, escrito pelo argentino Julio Cortázar em 1951, quando ele tinha 37 anos.

    Li este conto pela primeira vez quando tinha 16 anos e fazia uma oficina literária promovida pela prefeitura de São José dos Campos, por convite da minha tia, que também participou da oficina. Eu era uma das pessoas mais jovens da turma e para mim foi tudo muito novo e enriquecedor. Ao longo do curso, que durou um ano, conheci e li vários autores importantes (Borges, Shakespeare, Maiakovski, entre outros), tive algumas orientações sobre criação literária e produzi alguns textos. Um dos meus sonhos é fazer esta oficina literária para voltar a escrever e produzir textos de qualidade.

    Carta a uma senhorita em Paris é um conto epistolar escrito por um homem que vai morar por um tempo no apartamento de sua amiga Andrée, que está em Paris. O apartamento fica na "calle Suipacha", em Buenos Aires, e me surpreendi ao saber que esta rua realmente existe - quando fui para lá, no começo dos anos 2000, de repente vi uma placa com esse nome.

     Foto tirada daqui

    Tudo correria normalmente, se não fosse pelo fato de o amigo da Andrée vomitar coelhinhos, que, segundo o narrador-personagem, "não é motivo para não viver em qualquer casa, não é razão para que a gente tenha de se envergonhar e estar isolado e andar se calando".  Logo ao chegar ao prédio, no elevador, ele vomita um.

    "Ao passar o terceiro andar o coelhinho se mexia em minha mão aberta. Sara esperava em cima, para ajudar-me a entrar com as malas... Como explicar-lhe que um capricho, uma lojinha de animais? Envolvi o coelhinho em meu lenço, coloquei-o no bolsinho do sobretudo, deixando o sobretudo solto para não espremê-lo. Mal se mexia. Sua miúda consciência devia estar revelando fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço morno."

    Ele havia decidido matar os coelhinhos quando nascessem para que não o atrapalhassem durante o tempo em que fosse morar no apartamento da amiga, mas não conseguiu.

    Com o passar do tempo, ele vai vomitando outros coelhinhos e os esconde em um armário no quarto onde está hospedado, o quarto da amiga, para que a criada não os veja. De madrugada, deixa-os sair e os alimenta com trevos. Às vezes os coelhinhos estragam objetos no apartamento (essa é uma das razões pelas quais o amigo escreve a carta, porque acha justo informá-la sobre o que aconteceu).

    "Faço o que posso para que não destroçem suas coisas. Roeram um pouco os livros da prateleira mais baixa, vocês os encontrará escondidos para que Sara não note."

    Algumas páginas depois disso, Cortázar finaliza o conto.

    Uma característica interessante no apartamento de Andrée é que ela possui livros em idiomas diferentes e dicionários, o que indica que ela pode ser tradutora ou, pelo menos, que trabalha com idiomas diferentes. Já o amigo que ela hospeda parece ser tradutor mesmo.

    "Para mim é duro entrar em um ambiente onde alguém que vive confortavelmente dispôs tudo como uma reiteração de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, de outro em francês e inglês) [...] Como é condenável pegar uma tacinha de metal e pô-la no outro extremo da mesa, pô-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários de inglês e é deste lado, ao alcance da mão, que deverão estar."

    " [...] e meu Gide que se atrasa, Troyat que não traduzi [...]"

    Já reli esse conto várias vezes e, apesar de nunca conseguir compreendê-lo (ou talvez por isso mesmo), continua sendo o meu preferido. A minha interpretação é que todos temos "coisas" internas desconhecidas que uma hora ou outra precisam ser externalizadas ou vomitadas. Coisas que às vezes nem imaginamos que existiam e pelas quais podemos sentir ternura em vez de tentar assassinar em nós.

    Para ler o conto na íntegra, clique aqui.

    Para ler o conto original, em espanhol, clique aqui.

    Algumas observações interessantes sobre o tradutor para o português que li aqui: Remy Gorga Filho nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, cursou Direito e trabalhou como jornalista em vários jornais do país e não pretendia ser tradutor. Aprendeu espanhol de forma autodidata, para que pudesse ler literaturas francesa e russa, que estavam mais disponíveis em espanhol. A pedido de um colega de trabalho no Jornal do Brasil, que gostaria de ler contos do Cortázar mas não entendia completamente, Gorga Filho traduziu o conto "Casa Tomada". Foi esse colega que apresentou a tradução para a editora Expressão e Cultura, que aprovou o trabalho e o convidou a traduzir Bestiário - sua primeira tradução publicada. Além de ter traduzido outras obras de Cortázar, também traduziu obras de Mario Vargas Llosa e uma de Gabriel García Márquez. Recebeu duas vezes o prêmio de tradução da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi o primeiro tradutor a pedir e ter seu nome na capa dos livros que traduziu.

    Contos que compõem o Bestiário/Bestiario:

    - Casa Tomada / Casa tomada
    - Carta a uma senhorita em Paris / Carta a una señorita en París
    - A distante / Lejana
    - Ônibus / Ómnibus
    - Cefaleia / Cefalea
    - Circe / Circe
    - As portas do céu / Las puertas del cielo
    - Bestiário / Bestiario
    ***

    Empanadas argentinas

    As empanadas são um prato típico argentino. Elas são vendidas em qualquer lanchonete ou mesmo em mesas abertas na rua - pelo menos em Buenos Aires é assim. São um tipo de pastel de carne assado.

    A receita abaixo é uma adaptação da receita do chef argentino Francis Mallmann e foi tirada deste site: Aprenda a fazer as típicas empanadas saltenhas.


    Ingredientes:

    Massa
    1 xícara de água
    ½ colher de sopa de sal [ou menos]
    2 colheres de sopa de banha de porco de boa qualidade [usei manteiga, porque não encontrei banha]
    3 a 4 xícaras de farinha de trigo

    Recheio
    1 batata média, descascada e cortada em cubos de 1 cm
    250g de carne bovina moída
    Sal grosso e pimenta-do-reino moída na hora
    Azeite de oliva extravirgem
    1 cebola média, cortada em quartos e depois em fatias muito finas
    4 cebolinhas em fatias finas
    ½ colher de sopa de páprica picante
    ½ colher de chá de cominho em pó
    2 ovos grandes cozidos, picados grosseiramente

    Obs: se preferir, separe uma gema para passar sobre as empanadas

    Modo de preparo - Massa
    Para a salmoura, coloque para ferver em uma panelinha, em fogo forte, a água com o sal. Acrescente a banha de porco e mexa até derreter, depois, coloque em um recipiente grande e largo. Deixe esfriar à temperatura ambiente.
    Misturando com a mão, junte aos poucos de 3 a 4 xícaras de farinha, uma de cada vez, até que se possa formar uma bola com massa. Espalhe ½ xícara de farinha sobre a superfície de trabalho para que a massa não grude, e sove, acrescentando farinha até que não absorva mais. A massa deve ficar bastante dura e sequinha. Divida a massa ao meio, abra até uma espessura de 3 mm ou menos, corte com cortador de massa ou com a ajuda de um pratinho em discos de uns 12 cm de diâmetro e envolva em filme plástico. Deixe esfriar pelo menos por uma hora, ou até 24 horas (a massa também pode ser congelada, bem embrulhada, por até um mês).





    Modo de preparo - Recheio
    Cozinhe os cubos de batata e os ovos. Reserve.
    Coloque o azeite na frigideira e depois a cebola. Deixe dourar e depois acrescente a carne moída, os temperos e, por último, a cebolinha picada.


    Depois disso, acrescente a batata e os ovos picados.


    Estique a massa e monte as empanadas.


    Se preferir, passe um pouco de gema sobre as empanadas antes de levá-las ao forno. 
    [Note que algumas estão "deformadas" - no começo não consegui acertar na forma, mas depois, com um pouco de prática, consegui "formatar" melhor.]


    Asse por cerca de 30 minutos ou até as empanadas ficarem douradas.


    ¡Buen apetito!



  2. A cozinha da revolução

    domingo, 31 de março de 2013

    Título: A Cozinha da Revolução
    Título original: The Noodle Maker
    Autor: Ma Jian
    Tradutora (a partir da edição em inglês): Heloísa Mourão
    Editora: Record
    Número de páginas: 254
    Ano de publicação no Brasil: 2011
    ***
    Nesta sátira política, dois amigos chineses, um escritor e um doador de sangue, se encontram ocasionalmente para jantar e conversar. A refeição parece sempre ser paga pelo doador de sangue profissional, uma vez que sua profissão é melhor remunerada que a do escritor profissional (escritor de propaganda política).

    Na noite em que a história se passa, os dois comem carne de ganso, enquanto o escritor conta ao doador de sangue que o secretário do Partido lhe encomendou um conto sobre o camarada Lei Feng, um herói nacional, quando, na verdade, ele queria escrever um romance com outros personagens. Ao mesmo tempo, se sente propenso a escrever sobre Lei Feng para entrar para o Grande dicionário de escritores chineses.

    Entre um debate e outro com o doador, que também é meio filósofo, o escritor conta a história de personagens com os quais teve contato (ou talvez isso também faça parte de sua ficção):

    - um empreendedor que, com a mãe, abriu e cuida de um crematório particular, sendo que o forno fora usado anteriormente por alunos de artes/cerâmica de uma faculdade fechada; uma das vantagens de ser cremado no Crematório Enlevados é que os parentes do morto podiam escolher a música a ser tocada enquanto o corpo queimava, incluindo as músicas proibidas pelo governo, que custavam mais caro;

    - Ele é imortal agora - disse o filho. - Não importa se vai para o céu ou o inferno, ele não voltará para cá, principalmente porque conseguiu passar pela vida sem cometer qualquer erro grave. - Ele se aproximou do toca-fitas, desligou "A internacional" e depois colocou uma ária de Salambô sem custo adicional.

    - uma atriz que, por desilusão amorosa, decide fazer de seu suicídio um espetáculo - será devorada por um tigre ao vivo; os ingressos se esgotam rapidamente e entre os espectadores está o pintor por quem ela era apaixonada;

    - Todo sofrimento é criado pelo homem - dizia ela, tentando se consolar. - O sublime estado de confusão só é possível quando o coração está embotado. O suicídio é a única cura permanente para o desespero. - Su Yun se proibiu de pensar em seu nascimento ou sua morte. Sabia que os dois caminhavam em direções opostas, mas apontavam para o mesmo objetivo.

    - uma romancista de sucesso que se casa com o "Velho Hep", editor de uma revista literária que não tinha o mesmo nível intelectual que ela. O marido suporta vários maltratos e humilhações da esposa, até que redescobre sua autoconfiança ao arranjar amantes - ironicamente, trata uma tecelã, sua primeira amante, que o adora, como a esposa o trata; o escritor profissional chegou a dormir com a romancista uma vez;

    - Ninguém neste mundo é feliz de verdade. - O escritor ainda está pensando na romancista e no editor.

    - um escritor de rua, que escreve cartas para camponeses analfabetos que chegam à cidade e, por meio desse ofício, ajuda a impulsionar ou terminar relacionamentos; ele mora em um barracão onde funcionava o Crematório Enlevados, vazio desde que o filho e a mãe desapareceram; em uma noite, o espírito da velha ranzinza o visita (esse é um dos elementos fantásticos do livro) e, depois disso, ele chega à conclusão de que viveu a vida de outras pessoas e não a sua;

    "O homem ganha sabedoria somente por meio do sofrimento. As pessoas que nunca sofreram são incapazes de crescer. A felicidade é uma choupana de madeira que se encontra após uma longa e difícil jornada; as pessoas que tomam o caminho fácil nunca conseguem vê-la. A infelicidade que sofri no passado foi a infelicidade de outras pessoas. Não deixou em mim nenhuma marca."

    - uma moça que corre despida pela rua, depois de ter um tipo de colapso nervoso ao saber que suas colegas de trabalho criticavam seus grandes seios e se sente acabada com isso;

    "O problema não é a morte, mas a vida, e a vida é apenas um ato de resistência; é preciso trincar os dentes e encará-la." [trecho da fala do doador de sangue profissional]

    - um pai que tenta abandonar a filha retardada, para tentar ter um filho que perpetuasse o nome da família - com a Política do Filho Único, por sua filha mais velha ter nascido retardada, ele pôde conceber outro bebê, mas nasceu outra menina e somente no caso de a filha mais velha "sumir", o governo lhe daria a chance de conceber mais um filho;

    - o pintor por quem a atriz suicida era apaixonada que tinha um cachorro falante, o Sobrevivente. O cachorro de três patas vivia no sótão e não poderia ser visto por outras pessoas, caso contrário seria exterminado por causa da possibilidade de transmitir raiva, e conversava com o dono sobre as mazelas da sociedade. Um dia, ao chegar de viagem, o pintor percebe que o cão foi morto e será empalhado pelo museu onde trabalha. O cachorro era um dos personagens mais lúcidos do livro todo.

    - Talvez outros animais sejam igualmente indiferentes ao sofrimento de sua própria espécie, mas duvido que qualquer um deles possa encontrar tantas maneiras de causar dor como os homens encontraram. A mim me parece que o homem é a fera mais vil de todas.

    - Tudo que vocês querem é comer, fazer sexo e ir às compras. Todas essas atividades requerem a participação de outros, não apenas de uma pessoa, mas de um monte delas.Vocês precisam se apinhar em cidades e vilas para escapar do vazio de seus corações.

    Com frequência há referência à Política de Portas Abertas, iniciado por Deng Xiaoping, em 1978, que foi a abertura do país para o mundo, a fim de atrair investidores estrangeiros e alavancar a economia, e percebe-se uma mudança de comportamento em alguns personagens, como, por exemplo, o uso de batom e esmalte pelas mulheres, o anseio das pessoas em comprar produtos importados, cuja venda ainda é meio clandestina, o gosto por "músicas proibidas", mas os problemas de pobreza, burocracias e incoerências políticas persistem.

    Apesar de ter inserido vários elementos da cultura chinesa nas histórias, o autor também alcança o universal ao retratar a morte, o amor, a desesperança, o rancor, a maldade humana.

    Ma Jian nasceu em 1953 em Qingdao, leste da China, e atualmente mora em Londres, com a companheira Flora Drew, tradutora de alguns de seus livros para o inglês, e quatro filhos.

    Uma entrevista com Ma Jian pode ser lida aqui (em inglês).

    ***

    Rolinho primavera e molho agridoce

    Este prato é geralmente servido no Ano-Novo Chinês (também chamado de "Festival da Primavera", daí o nome) e, segundo informações lidas na internet, sua receita surgiu aproximadamente no ano  300.


    Ingredientes:

    Massa
    2 xícaras (chá) de farinha de trigo
    2 xícaras (chá) de água
    sal a gosto
    óleo para fritar

    Recheio
    1/4 de repolho
    1 cenoura
    300 g de frango
    2 tabletes de caldo de galinha
    1 tomate
    1 cebola
    molho de soja (shoyu) a gosto
    óleo para refogar

    * também usei queijo mussarela para rechear alguns rolinhos

    Molho agridoce
    1 xícara (chá) de suco de abacaxi
    2 colheres (sopa) de açúcar
    1/4 xícara (chá) de água
    1 colher (sopa) de maisena
    4 colheres (sopa) de ketchup
    1 colher (sopa) de vinagre
    1 colher (chá) de sal
    corante vermelho

    Modo de preparo:

    Massa

    Bater a farinha, a água e o sal com um fuê, até obter uma massa lisa e deixar na geladeira por aproximadamente 4 horas.


    Depois disso, coloque um pouco de óleo na frigideira, retirando o excesso com um guardanapo, frite a massa, espalhando-a com a ajuda de um pincel para cozinha, para que fique bem fina. Deixar um pouco de massa para servir como "cola" para fechar os rolinhos depois.


    As primeiras massas ficaram meio grossas e feias, mas depois fui pegando o jeito:



    Uma dica é deslocar a frigideira para uma boca sem fogo, espalhar a massa e depois voltá-la para o fogo. Fiz isso para ter um pouco mais de tempo de espalhar a massa antes que ela se solidificasse.

    Reserve.


    Recheio

    Cozinhe o frango (usei peito) em água e um tablete de caldo de galinha.


     Depois que cozinhar, desfie.


    Corte o repolho em tiras finas e rale a cenoura.


    Pique a cebola e o tomate. Esquente o óleo, coloque a cebola e, quando estiver frita, adicione o tomate picado e o outro tablete de caldo de galinha. Em seguida, acrescente o repolho e a cenoura picados e também o frango.


    Também usei queijo mussarela para rechear alguns rolinhos.

    Enrole o recheio na massa.


    Coloque um pouco do recheio escolhido mais para o lado inferior.



    Dobre as duas bordas.


    Enrole todos os rolinhos e, depois, passe o restante da massa nas bordas para colar.


    A lateral do rolinho ficará mais ou menos dessa forma


    Para selar os rolinhos, esquentei a frigideira e deixei ali por alguns minutos, pois só passar o restante da massa na borda não foi suficiente. Com isso, o problema do fechamento foi resolvido.

    Retire os rolinhos da frigideira e reserve-os em um prato. Acrescente óleo e, quando estiver bem quente, frite-os até dourar.


    Molho agridoce

    Misture todos os ingredientes em uma panela e misture até engrossar. Não cheguei a usar maisena porque não tinha, por isso o molho ficou menos grosso, mesmo assim, ficou bom. Pode-se acrescentar um pouco mais dos ingredientes para acertar o gosto (caso o abacaxi esteja azedo, será necessário adicionar mais açúcar, por exemplo).


    Vi partes desses vídeos no YouTube que me ajudaram: este e este (parte 2).

    Também é possível comprar a massa pronta, feita com farinha de arroz, em lojas de produtos orientais, mas ainda não experimentei. É uma alternativa, pois acertar a espessura fina da massa dá um certo trabalho.

    Apesar de ser uma receita bastante trabalhosa (não exatamente difícil), valeu a pena. Minha maior curiosidade era saber como o molho agridoce, que sempre acompanha os rolinhos nos restaurantes, era feito. Agora já sei! :)


  3. Amor e lixo em Praga

    quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

    Sobrecapa

    Capa

    Título: Amor e lixo
    Título original: Láska a smetí (edição tcheca) / Love and garbage (edição inglesa)
    Autor: Ivan Klíma
    Tradutor (a partir da edição inglesa): Eduardo Francisco Alves
    Editora: Record
    Número de páginas: 240
    Ano de publicação no Brasil: 1993
    ***

    Terminei de ler Amor e Lixo em um fim de semana que passei com amigos num agradável chalé no interior de São Paulo, enquanto eles jogavam videogame. 

    Foi uma leitura que começou com entusiasmo e depois foi ficando arrastada em algumas partes.

    O autor, Ivan Klíma, é um sobrevivente de um campo de concentração nazista e, provavelmente por isso, a obra apresenta um clima de "sufocamento" e desesperança. Muitas cenas parecem se passar às escondidas e, apesar de não haver descrições detalhadas, eu sempre imaginava um clima nublado.

    O protagonista é um escritor que, após não ter conseguido contrato com nenhuma editora, decide trabalhar como gari pelas ruas de Praga, capital da República Tcheca. Essa decisão não parece ter sido tomada apenas por falta de outras opções, como ele escreve nesta passagem: 

    Eu mesmo não estou muito certo quanto ao que me levou a tentar esse trabalho tão pouco atraente. O mais provável é que eu tenha achado que, com ele, obteria uma visão inesperada do mundo. De vez em quando a gente sente que, a não ser que encare o mundo e as pessoas de um ângulo novo, a mente vai ficar embotada.

    Logo depois de começar a trabalhar como gari, conhece Daria, de quem compra uma escultura de presente para a esposa e, ironicamente, se torna sua amante. Apesar de se sentir culpado em relação à esposa, Lída, com quem tem dois filhos, ele continua a encontrar Daria, pois sente que ela lhe inspira paixão e vontade de viver. Também admira o fato de a amante ser artista e ter um trabalho criativo (enquanto a esposa parece ter um trabalho "comum" - pelo que entendi, é psicóloga).

    Um tempo depois, ele acaba contando para a esposa sobre Daria. Por sentir que a esposa estava insegura, conclui que o "certo" é ficar ao lado da esposa e continua morando com ela e com os filhos, além de prometer que não vai mais ver Daria. Promessa que só consegue cumprir por um tempo.

    As reflexões que o protagonista faz sobre sobre literatura, vida, amor e morte e os comentários sobre Kafka (autor que também era tcheco e viveu em Praga), além de suas impressões sobre suas relações familiares são muito interessantes. No entanto, as partes em que ele fica "confuso" por não saber se fica com a esposa ou se parte para uma nova vida com Daria, a amante, além de esta insistir em chantagens emocionais são muito chatas. A indecisão do protagonista é irritante, mas talvez se justifique dentro da obra, considerando-se o fim.

    Ivan Klíma não escreve uma literatura "fácil", mas vale a pena conhecer. 


    Ainda creio que a literatura tenha alguma coisa em comum com a esperança, com uma vida livre fora dos muros da fortaleza que, geralmente sem que o percebamos, nos cercam, com os quais, na maior parte das vezes, nós mesmos nos cercamos.

    ***

     Bramboráky (Panquecas de batata)


    Ingredientes para aproximadamente 4 pessoas:
    500 gramas de batatas
    75 gramas de farinha
    2 ovos
    50 gramas de carne defumada
    1 1/2 colher de sopa de leite
    2 dentes de alho
    manjerona, pimenta do reino, sal a gosto
    olho para fritar

    Modo de preparo: Descascar e ralar as batatas cruas, tirar a água e acrescentar ovos, farinha, leite, alho esmagado, temperos e sal. No final, acrescentar carne defumada [usei copa] cortada em pedacinhos pequenos. Misturar tudo e fritar dos dois lados numa frigideira média.
    Dica: fritar uma camada fina da massa em fogo baixo para não queimar e nem ficar crua.

    Batatas raladas

    Copa (carne suína defumada)

    Massa


    ***
    Knedlíky (Pão cozido na água)


    Ingredientes:
    300 g de farinha
    5 g de fermento biológico
    1 ovo
    1 xícara de leite
    uma pitada de sal (caso queira um sabor mais acentuado, acrescentar uma quantidade maior)
    uma colher de chá de açúcar


    Modo de preparo:
    Misturar fermento biológico com um pouco de leite morno e uma colher de chá de açúcar. Deixar até levedar por uns 10 minutos. Depois misturar todos os ingredientes, acrescentar a mistura de fermento, amassar bem todos os ingredientes, acrescentando farinha se necessário, e esperar até a massa dobrar volume (aproximadamente 1 hora).


    Dividir a massa em duas partes e enrolar sobre uma superfície coberta de farinha.


    Colocar os pães para cozinhar em água fervente:



    Deixar cozinhando com a panela tampada.


    Tadãmm! :)



    Esse pão geralmente serve de acompanhamento para outros pratos com carne, como o guláš (se lê "gulásh"), que ainda não aprendi a fazer, e também tem uma variação feita com batatas, o bramborový knedlík (brambor = batata, em tcheco). Para mim, a vantagem desse pão é ele não ficar com aquela casca dura de quando se assa o pão no forno. Ele fica bastante úmido e macio.


  4. Um amor, uma valise e cogumelos

    quarta-feira, 30 de janeiro de 2013


    Título: A valise do professor
    Título original: Sensei no Kaban
    Autora: Hiromi Kawakami
    Tradutor: Jefferson José Teixeira
    Editora: Estação Liberdade (ver site)
    Número de páginas: 228
    Ano de publicação no Brasil: 2012

    ***
    Ideograma Sensei no Kaban [A valise do professor]

    Como lidar com um amor impossível? Lutando por ele mesmo assim? Desistindo? Se resignando? Se declarando? Ou simplesmente tentando esquecer?

    Este livro da Hiromi Kawakami é um pouco sobre isso, sobre o amor "impossível" entre uma mulher de trinta e tantos anos com um ex-professor do colégio, trinta anos mais velho que ela, mas também sobre o extraordinário dentro do cotidiano, sobre cultura e culinária japonesa e relações humanas em grandes metrópoles, além de um toque de sensualidade.

    O encontro entre Tsukiko e o "professor", como ela o chama, primeiro por não se lembrar de seu nome e, depois, talvez por costume, se dá em um bar, onde ambos entram e coincidentemente pedem os mesmos pratos. Ele se lembra da aluna displicente que ela foi e, embora ela não se lembre do nome do professor, aos poucos, se aproximam, passam a se encontrar vez ou outra no bar para comer e beber juntos. Ao longo do livro, há várias referências a pratos da culinária japonesa (alho-porro em salmoura, tiras de raiz de lótus cozidas, feijão-soja com atum, carne de porco com picles coreano, sopa de cogumelos, trutas, yakissoba, fondue de polvo, haliotes, mexilhões) e dois capítulos são dedicados à colheita de cogumelos em um bosque e à preparação de uma sopa com eles no local.

    O convite para a colheita de cogumelos é feita por Satoru, o dono do bar onde Tsukiko e o professor frequentam, e os dois aceitam. Posteriormente, a eles se junta um primo de Satoru chamado Toru.

    "Com nós quatro comendo, a sopa de cogumelos aparentemente volumosa acabou num piscar de olhos. A mistura de muitas espécies de cogumelos dava-lhe um sabor inigualável. Foi o professor quem se serviu desse adjetivo. No meio da conversa, ele disse de repente:
    - Satoru, é um aroma inigualável."

    No capítulo "Colheita de cogumelos - 2", há uma discussão meio engraçada sobre cogumelos venenosos e, nessa parte, também nos é revelado um episódio curioso sobre a ex-esposa do professor, que um dia encontrou e ingeriu "cogumelos do riso", que tem propriedades alucinógenas.

    Depois de um tempo, Tsukiko se espanta ao perceber que o prazer de ter a companhia do professor havia se transformado em amor. E sofre por, aparentemente, não ser correspondida. Apesar disso, tenta a todo custo não criar expectativas. O lado racional muitas vezes demonstra estar no comando.

    "Um relacionamento superficial. Decidi que seria assim. Sóbrio, longo, sem exigências. Por mais que tente me aproximar dele, ele não me dá chance. Parece existir entre nós um muro de ar. À primeira vista tão leve a ponto de não se poder segurá-lo e, quando contraído, acaba repelindo tudo. Um muro de ar."

    Além do professor, um dos únicos contatos de Tsukiko é um "pretendente" chamado Kojima, com quem ela havia saído nos tempos de colégio e volta a encontrar, mas, por vezes, quando está com ele, ela pensa no professor, por isso o relacionamento deles não evolui.

    Além da história dos personagens principais, talvez solitários metropolitanos em busca de companhia e algum tipo de amor, está a beleza da narração do cotidiano. Kawakami conseguiu prender minha atenção, narrando de um jeito peculiar ações banais, como ir para um bar e pedir comida, percorrer uma feira livre, caminhar na rua observando a lua, apreciar as cerejeiras em flor, conversar sobre amenidades. Isso para mim é arte: narrar as banalidade do dia a dia de um jeito muito interessante. Se eu pudesse escolher, escolheria ter um estilo de escrita assim.

    A "valise" do título não é à toa. O professor realmente carrega uma valise para todo lugar que vai e ela também é lembrada no fim do livro.

    Hiromi Kawakami nasceu em Tóquio em 1958 e ganhou vários prêmios literários, incluindo o Prêmio Tanizaki (um dos mais importantes do Japão) de 2001 por este livro.

     ***
    Missoshiru com shimeji e shiitake

     
    Ingredientes:
    1 1/2 de água
    1 pacote de shimeji
    1 pacote de shiitake
    1 pacote de tofu
    6 moti (bolinhos de arroz)
    1 pacote de hondashi (aproximadamente 10g)
    3 colheres de missô (pasta de soja)
    1 xícara de cebolinha picada
    Aji-no-moto e sal a gosto

     
    Modo de preparo:
    Ferva a água, acrescente o missô e o hondashi, mexendo bem para dissolver o missô. Corte o shiitake em tiras...


    ... e separe os ramos do shimeji, colocando-os em seguida no caldo. Acrescente também o tofu cortado em cubos e a cebolinha picada. Por último, o moti cortado em pedaços. Se achar necessário, acrescente Aji-no-moto e sal.


    Observações:

    1. O shimeji e o shiitake foram comprados em um Pão de Açúcar; gosto da marca Nayumi (ver site), porque a qualidade dos cogumelos é boa, mas acho que eles não são distribuídos fora de São Paulo. O tofu foi comprado em uma loja de produtos orientais. O missô caseiro e o hondashi foram doados pela minha mãe, mas são facilmente encontrados no Pão de Açúcar ou lojas de produtos orientais. O moti caseiro também foi doado pela minha mãe, que comprou um pacote com 12 unidades na feira de domingo em uma banca cujos donos são descendentes de japoneses - mas isso tem para comprar em lojas de produtos orientais. Se estiver em São Paulo, recomendo a loja Marukai, que fica na rua Galvão Bueno, perto da estação de metrô Liberdade.

    2. Creio que a principal forma de se comer moti seja assando-o em uma frigideira, em fogo baixo, e depois misturando-o ao molho com shoyu, açúcar e Aji-no-moto. Eu cresci comendo isso:



    3. A editora Estação Liberdade também publicou o livro Quinquilharias Nakano, da mesma autora, em 2010 e eu quero ler!

    4. Este post não foi patrocinado. Não falo bem do que e de quem não gosto por dinheiro nem presentes.