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  1. Gabrielle Hamilton e o Breton butter cake

    segunda-feira, 31 de dezembro de 2012



    Título: Sangue, ossos & manteiga
    Título original: Blood, Bones & Butter
    Autora: Gabrielle Hamilton
    Tradutor: Lucas Murtinho
    Editora: Rocco (ver site)
    Número de páginas: 384
    Ano de publicação no Brasil: 2011


    ***

    "Na faculdade, conheci a escritora sulista Jo Carson, que me disse: 'Cuidado com o que você aprende a fazer bem, porque é o que vai fazer pelo resto da vida.' E aquilo ficou na minha cabeça para sempre. Às vésperas do meu trigésimo aniversário, pensei que seria útil descobrir se eu tinha outro talento que não fosse aguentar turnos de vinte horas sem reclamar, fumar cigarros sem filtro e xingar mais do que meus colegas homens." (p. 118)

    Apesar de nunca ter planejado abrir um restaurante, esse foi o caminho que se abriu para Gabrielle Hamilton, caçula de mãe francesa e pai americano (com quatro irmãos mais velhos) e atualmente dona do restaurante Prune ["ameixa" em francês, apelido carinhoso pelo qual era chamada pela mãe quando criança], em Nova York.

    Nessa autobiografia tragicômica, além de contar sobre como foi abrir um restaurante sem ter planejado (como nada na vida dela parece ter sido), Gabrielle também descreve acontecimentos de sua vida desde que seus pais se separaram e ela precisou arrumar um emprego em um restaurante aos 13 anos até a abertura de seu badalado restaurante. Depois que se formou no ensino médio, arrumou suas coisas e se mudou de uma cidadezinha chamada New Hope, na Pensilvânia, para Nova York, aonde foi fazer faculdade e passou a trabalhar em um bar no estilo cowboy. Lá se envolveu em confusões e precisou se mudar para outra cidade.

    Em meio a vários trabalhos envolvendo comida, em restaurantes, buffets e acampamento para crianças, Gabrielle tentava se encontrar. Em uma viagem que fez à Grécia, com muito pouco dinheiro, ela descreve um momento muito reconfortante, em que um conhecido de sua irmã prepara uma refeição simples, mas deliciosa para ela, que estava faminta:

    "Provavelmente vinte anos mais velho do que eu, com um grande bigode e rugas de riso ao redor dos olhos verdes, Iannis me encontrou na praça Omonia, me levou a seu apartamento e, sem nem perguntar, começou a fritar, em azeite de oliva, dois ovos com as gemas laranja mais escuras que eu já tinha visto, depois os salpicou com sal marinho grosso e cortou uma fatia de um pão grosso e crocante. Num liquidificador, ele misturou maçã, mel e leite, e me serviu aquela refeição incrível e refrescante com um vasto sorriso. Eu ansiava por sal e amido. Ovos e pão." (p. 170-171)

    [Depois de ler esse trecho do livro, fiquei com muita vontade de provar maçã, mel e leite batidos no liquidificador. É muito bom.]

    Gabrielle também conta sobre seu afastamento da família, exceto da irmã Melissa, a relação com a namorada que teve, até encontrar um italiano que viria a ser seu marido, sobre o filho, sobre uma viagem à Itália que fez para conhecer a família do marido, sobre outra viagem que fez com o marido para visitar a própria mãe, que não via fazia uns vinte anos, em Vermont. No entanto, ela não cai na tentação de fazer tudo parecer cor de rosa, pelo contrário, conta de um jeito aparentemente sincero sobre a sensação de deslocamento, as dificuldades pelas quais passou e de relacionamento humano e, às vezes, sobre a falta de sentido de se viver determinadas situações.



    ***


    A receita de hoje, baseada em Sangue, ossos & manteiga, é do "Breton butter cake" ou simplesmente "bolo bretão", proveniente da região da Bretanha (daí o nome), na França. Esse prato não aparece no livro, mas foi escolhida por estar no cardápio do restaurante Prune e, depois, descobri que a Gabrielle publicou o artigo The Chef, em 4 de abril de 2001, sobre este bolo, e também sua receita, em sua antiga coluna no jornal The New York Times (que traduzi abaixo, exceto a receita, pois usei outra). Quem quiser ler o artigo e a receita original, em inglês, clique aqui.

    "Provei o Breton butter cake, ou Kouing-Aman, pela primeira vez quando tinha 5 anos. Minha mãe, que é francesa, costumava nos levar a Bénodet, uma cidadezinha litorânea em Brittany [noroeste da França], onde almoçávamos grossas fatias de pão com uma distinta manteiga com sal de Brittany e uma grande travessa de frutos do mar. Depois, parávamos em uma confeitaria para comer uma fatia desse bolo esfarelante, denso, doce e salgado. 

    É bem parecido com a massa folhada, apenas mais doce, com macias camadas amanteigadas que crescem de forma desinibida, apesar da gravidade. Na superfície, uma fina crosta quebradiça com perfume de água de flores de laranjeira, açúcar e mais manteiga.

    Demorei meses para  tentar recriar o bolo aqui, com uma manteiga americana menos cremosa e menos salgada. Quando finalmente acertei - uma questão de equilibrar o açúcar e o sal -, coloquei-o no menu e servi como se faz na França: uma fatia colocada em um prato. Sem raminho de hortelã. Sem sorvete. Sem enfeites ridículos.

    E o que aconteceu? Ninguém o pedia. Os atendentes não sabiam como vendê-lo. A confeiteira, na época, tinha mil ideias para melhorá-lo. Sugeriu que eu escaldasse um pedaço de fruta para servir com ele ou fazer uma geleia para colocar sob o bolo. As sugestões dela me deixaram tão deprimida que precisei descer para o porão para ficar na minha e me recuperar. Agora o padrão são sobremesas com vários componentes. Fiquei triste porque não conseguia oferecer algo simples e que não precisasse de explicações.

    Estava frio e silencioso ali naquela noite. Me debati com isso a noite toda. Frutas? Geleia? Calda? Nada disso parecia bom. Continuei me perguntando: o que mais eu gostaria que viesse com esse bolo? Afinal de contas, é um bolo completo, uma sobremesa marcante. Gosto de brincar com isso como um bartender faz piada sobre jogar uma garrafa de vermute sobre um martíni apenas para mostrar como ele é seco; esse bolo é só manteiga e açúcar e passamos direto pela lata de farinha.


    Finalmente retornei, decidida a deixar o bolo em sua esfarelante e maravilhosa simplicidade. Mas nós o serviríamos com uma taça de vinho de sobremesa, Muscat de Beaumes-de-Venise. Assim como o bolo, ele é bastante perfumado. O vinho resolveu o problema; colocou um ponto final na história. Um jato de espresso teria o mesmo efeito.

    Não é um bolo fácil. Leva a manhã inteira para ser feito. No entanto, é sensualmente gratificante. A massa está fresca, a superfície suave em uma mesa, o mármore pálido da manteiga sendo incorporado à massa, a extensa camada de massa antes de ser dobrada, como madeira recém-cortada. É suave e quase branca. E, é claro, seu cheiro saindo do forno - esfuziante, perfumado e açucarado - deixa qualquer pessoa na cozinha com água na boca."




    ***


    Breton butter cake
    Receita do chef francês Georges Paineau (ver original aqui)


    Ingredientes:
    350g de farinha de trigo
    350g de manteiga com sal derretida
    300g de açúcar
    1 colher (sopa) de essência de baunilha
    1 ovo inteiro
    2 gemas
    1 colher (sopa) de água de flores de laranjeira
    1 colher (sopa) de leite
    1 colher (sopa) de fermento [acrescentei esse ingrediente à receita do chef Paineau]


    Modo de fazer:
    Numa tigela, misture a farinha, o açúcar e a essência de baunilha. Faça um buraco no centro e coloque o ovo, uma gema, a manteiga derretida e a água de flores de laranjeira. Misture todos os ingredientes com uma colher de pau, sem bater demais.

     Manteiga derretida


    Água de flores de laranjeira do Líbano, encontrada no Pão de Açúcar

    Preaqueça o forno a 180°C e unte a forma. Coloque a massa na forma e acerte sua superfície com a palma da mão. Misture a segunda gema e o leite e pincele para dourar. Asse por 50 minutos.

    Massa pincelada com uma gema e uma colher de leite misturadas

    Quase uma hora depois...


    Acompanhamento - geleia de laranja:
    Uma sugestão do chef francês é servir o bolo acompanhado de geleia de laranja.
    Descasque três laranjas, retirando todas as membranas brancas entre os gomos. Esprema os gomos para tirar o suco. Reduza-o à metade com 150g de açúcar e baunilha. Acrescente os gomos espremidos e cozinhe em fogo brando até que o suco seja completamente absorvido. 




    Leite + maçã + mel, batidos no liquidificador:




  2. Gourmet, comida japonesa em HQ

    terça-feira, 27 de novembro de 2012

     Sobrecapa

    Capa

    Título: Gourmet
    Título original: Kodoku no Gurume
    Autores: Jiro Taniguchi (texto) e Masayuki Qusumi (desenhos) 
    Tradutora: Drik Sada
    Editora: Conrad (ver site)
    Número de páginas: 200
    Ano de publicação no Brasil: 2009
    ***
    "... e eu estou é com muita fome." Assim começa a narração do protagonista da HQ Gourmet, termo muitas vezes associado a comidas refinadas (e caras), mas, dentro da obra, tem a ver simplesmente com o prazer que uma boa comida proporciona.


    Ao longo dos dezoito capítulos, pouco descobrimos sobre o protagonista, além do fato de ele ser um comerciante ou negociante que faz muitos trabalhos externos, por isso, muitas vezes, não tem horário nem lugar certo para comer. Então, acompanhamos seus passos por Tóquio e redondezas, onde ele entra em diferentes tipos de restaurantes, em uma loja de conveniência e em uma barraca de rua e pede os pratos que está com vontade de comer naquele determinado dia, descrevendo-os. A combinação de HQ e comida é perfeita.

     Mamekan (gelatina de alga + grãos de feijão kuromame + calda de açúcar de cana)


    Algumas outras comidas que parecem muito boas apresentadas (e devoradas) pelo protagonista:

    Vienna Curry

    Gyoza (pastel de carne de porco, geralmente cozido no vapor)


    Conforme o protagonista anda pelas ruas, podemos ler seus pensamentos e observações sobre o cotidiano japonês. Uma de suas falas resume mais ou menos o que ele pensa e sente sobre o ato de comer:


    Apenas em três momentos podemos vislumbrar detalhes de sua vida pessoal: quando o protagonista pensa em vender jaquetas de couro e lembra de quando estava com sua ex-namorada, uma atriz japonesa promissora, em Paris, e ambos se separaram, pouco antes de comer yakimanju (bolinhos assados com ou sem recheio de doce de feijão, enfileirados no espeto); quando vai a um jogo de beisebol, pois seu sobrinho está jogando (onde come o "Vienna Curry" da ilustração acima e quase morre de calor, pois o dia já estava quente - o curry tem um sabor apimentado) e quando vai à ilha Enoshima e se lembra de uma outra ex-namorada com quem fora lá pela primeira vez havia muitos anos - e depois vai comer manju (bolinho assado com recheio de anko, doce de feijão).

    Duas curiosidades: 1. o protagonista não bebe e isso às vezes o constrange em alguns locais, pois é comum os clientes japoneses pedirem algum tipo de bebida alcóolica enquanto aguardam a comida e 2. ele fuma. Nunca entendi pessoas que fumam, principalmente depois de uma boa refeição.
    Para quem não tem familiaridade com nomes de pratos da culinária japonesa, as duas últimas páginas da HQ apresentam um glossário dos pratos da HQ e seus principais ingredientes.

    A HQ termina com o protagonista fazendo uma boa refeição, o que pode deixar alguns leitores com uma vontade louca de fechar o livro e correr para um restaurante japonês.
    Obs: obrigada, Sergio, pela indicação desta HQ!
    ***
    Mamekan
    Tentei fazer o mamekan de forma adaptada, mas não ficou bom. Na receita original são utilizados: kanten (gelatina de alga), um tipo de feijão chamado kuromame (procurei, mas não achei para comprar) e calda de açúcar de cana. Utilizei: kanten, feijão azuki e, para a calda, fervi caldo de cana até engrossar:



    Não gostei da combinação kanten + feijão. Mesmo se tivesse o kuromame disponível, não acredito que o gosto seria muito melhor. Então, abaixo, fiz uma versão melhorada do mamekan, que ficou bem melhor!

    Ingredientes:
    1 pacotinho de kanten (5g)
    1 copo americano de açúcar
    frutas picadas a gosto (usei pitaia, kiwi, morango, uva e cereja e abacaxi em calda)
    leite condensado a gosto

    Modo de preparo:
    Prepare o kanten conforme instruções da embalagem, acrescentando o açúcar e, quando estiver pronto, corte em cubos. Detalhe: esse tipo de gelatina não precisa necessariamente ir para a geladeira para ficar consistente, pode ser deixada ao ar livre até endurecer.

    Pique as frutas, junte aos cubos de kanten e cubra tudo com leite condensado a gosto.

    Também fiz uma versão com mel, em vez de leite condensado, que ficou boa:


    Essas são duas marcas de kanten que já comprei e são boas (são encontradas em supermercados e lojas de produtos orientais):



    ***

    Sobá

    Este prato, apesar de não estar na HQ, é deliciosa e gostaria de compartilhar.
    A Yuri que preparou e fiquei de assistente.

    Ingredientes:
    1 pacote de macarrão próprio para sobá
    1,5 litro de água fervente
    500g de frango cortado em cubos
    5 colheres (sopa) de shoyu
    konbu em pó ou hondashi a gosto
    1 pacote de shiitake
    tikuwa (massa de peixe) fatiado
    omeletes com um pouco de açúcar, Aji-no-moto e sal picadas em tiras
    gengibre ralado
    cebolinha picada
    alga salgada e frita em folhas

    Macarrão escorrido, ovos cortados em tiras, tikuwa, alga em folha e gengibre

    Usamos esta marca de alga coreana:
     
    Modo de preparo:
    Cozinhe o macarrão conforme instruções da embalagem. Ao mesmo tempo, ferva a água, acrescente os cubos de frango e o konbu/hondashi, até que o frango esteja cozido. Depois, acrescente o shoyu, o shiitake cortado em tiras e a cebolinha picada. Cozinhar por mais alguns minutos.

    O macarrão ficará pronto antes do caldo, escorra e reserve.
     Caldo para sobá
    Corte o tikuwa.



    Frite os ovos (em forma de omelete, com um pouco de açúcar, Aji-no-moto e sal) e corte em tiras finas, com mais ou menos 2 cm de comprimento):




    Rale o gengibre.


    E agora é só montar o prato:

    Em uma cumbuca ou tchawan (cumbuca japonesa), coloque o macarrão.


    Acrescente o molho.


    Acrescente o tikuwa, o ovo, o gengibre e a alga e... tcharam! :)



     ***
     Bônus: Saquerinha
    For hard times, saquerinha time!

    Ingredientes:
    fruta(s) lavada(s) e picada(s) a gosto
    saquê
    açúcar a gosto
    gelo



    Modo de preparo:
    Pique a(s) fruta(s) escolhida(s), coloque a quantidade desejada em um copo, acrescente açúcar a gosto, soque as frutas com um socador. Acrescente cerca de dois dedos de saquê, misture e acrescente pedras de gelo.

    Algumas saquerinhas que já preparei:

    Saquerinha de uva

     Saquerinha de morango

    Saquerinha de lichia

    Saquerinha de melancia

    Saquerinha de kiwi e morango

    Kampai! Saúde!


  3. Tomates Verdes Fritos

    terça-feira, 30 de outubro de 2012


    Título: Tomates verdes fritos - No Café da Parada do Apito
    Título original: Fried Green Tomatoes at the Whistle Stop Cafe
    Autora: Fannie Flagg
    Tradutora: Vera Caputo
    Editora: Globo
    Número de páginas: 362
    Ano de publicação no Brasil: 1993 (4ª edição)

    ***
    Depois de reler este livro e rever pela enésima vez o filme, prestando atenção aos aspectos culinários, tive a impressão de que se come bem no Alabama e na Geórgia, estados da região sul dos Estados Unidos, onde a história acontece. Há muitos pratos fritos - e muito calóricos, eu sei -, mas que parecem deliciosos.

    Vi o filme pela primeira vez na década de 1990, quando ainda existiam fitas VHS na locadora. E lembro que no verso do encarte de papel, que aparecia na parte interna da caixa da fita, vinha a receita dos tomates verdes fritos - uma ideia simples, mas muito legal. Vários anos depois, li o livro.

    A autora Fannie Flagg [foto retirada daqui]

    Annie Flagg escreveu Tomates Verdes Fritos na década de 1980 e uma parte da história se passa mesmo nessa época, e a outra, principalmente nas décadas de 1920 e 1930. A narrativa da época mais recente é linear, e os fatos do passado são apresentados sem ordem cronológica pela narradora-personagem Ninny, por um narrador-observador ou por meio de um jornal semanal fictício, O Semanário Weems, escrito por Dot Weems, que também trabalha na agência dos correios de Whistle Stop, Alabama.

    Página do livro com a diagramação do Semanário Weems

    Quando Evelyn Couch, uma dona de casa infeliz, acompanha o marido em uma visita à mãe dele em uma casa de repouso para idosos em Birmingham, Alabama, ela conhece uma senhora octagenária, Ninny Threadgoode, que estava passando uns dias no local para acompanhar uma velha amiga e, depois que tudo estivesse bem, voltaria para sua casa em Whistle Stop. O encontro se dá na sala de espera da casa de repouso, logo depois que Evelyn é expulsa do quarto pela sogra, que vive de mau humor. No começo, Ninny se mostra um pouco inconveniente, puxando conversa e falando sem parar, mas logo prende a atenção de Evelyn ao começar a narrar a história da família Threadgoode, especialmente sobre Idgie Threadgoode e Ruth Jamison.

    Desde criança, Idgie já demonstrava ter vontades e opiniões próprias e era a irmã preferida de Buddy, assim como ele era o seu irmão preferido. Depois da morte dele, quando ela tinha uns 12 anos,  tornou-se arredia, gostava de pescar e andar sozinha pelo mato. Passados quatro anos, com a vinda de Ruth, filha de amigos da família, que cuidaria de assuntos da igreja local por um tempo, isso mudou. Ruth ficou hospedada na casa dos Threadgoode e conseguiu conquistar a confiança de Idgie, que passou a lhe dar ouvidos e a conviver um pouco mais civilizadamente com a própria família. Idgie havia se apaixonado por Ruth e isso foi encarado com naturalidade pela família, o que me soou um pouco inverossímil, pois isso acontece na década de 1920. De qualquer forma, a única coisa que importava para os pais de Idgie é que ela estivesse feliz e voltasse para perto da família. 

    A minha parte preferida do livro (e do filme) é quando Idgie rouba a chave do carro de um dos irmãos e leva Ruth para um piquenique em uma área deserta. Nesse lugar, Idgie pede para Ruth ficar parada,  ela então caminha até uma árvore, enfia a mão e um pote dentro de seu tronco e depois o retira cheio de mel, enquanto muitas abelhas esvoaçam e pousam sobre ela. 

    É engraçado como a maior parte das pessoas pode estar perto de alguém e gradualmente começar a amá-lo, mas jamais saber quando foi que isso aconteceu; mas Ruth sabia exatamente qual fora o seu momento. Foi quando Idgie sorriu e lhe ofereceu o vidro de mel que todos os seus sentimentos ocultos há tanto tempo vieram à tona. Foi aí que ela descobriu que amava Idgie profundamente. Por essa razão começou a chorar naquele dia. Nunca sentira nada parecido e tinha certeza de que jamais voltaria a sentir algo igual.
    [trecho do livro, p. 88]

    "Encantadora de abelhas" [tirado daqui]
    Depois disso, Ruth precisa ir embora para se casar com o noivo em outra cidade, o que deixa Idgie arrasada. Mas, depois de um tempo, Idgie a "resgata", pois fica sabendo que o marido batia nela, e elas passam a morar com os Threadgoode. Como Ruth está grávida, o pai de Idgie lhe dá um dinheiro para abrir um café e diz que, a partir de então, ela seria responsável por cuidar de Ruth e do bebê.
    Quando Buddy Threadgoode Jr., filho de Ruth, nasce, é considerado por todos filho dela e de Idgie, que ajuda a criá-lo. Pouco depois, surge o Café da Parada do Apito, onde elas passam a servir refeições diversas (incluindo tomates verdes fritos e churrasco) e sobremesas.

    Cena do filme
    O fato de venderem comida para os negros (que comem na parte de trás do Café) irritam algumas pessoas e membros da Ku Klux Kan, mas Idgie não se intimida.

    O assassinato do marido de Ruth dá um pouco de suspense à trama, mas o caso se resolve de modo inusitado.

    Evelyn Couch passa a ter prazer em visitar Ninny na casa de repouso, pois tem bastante interesse em saber mais sobre a história dos Threadgoode e também porque a amizade daquela senhora muda sua vida de modo surpreendente ao longo do ano em que elas se encontram.

    O final do livro é um pouco triste. No filme, suavizaram.

    Em um tipo de apêndice no final do livro, há várias receitas, provavelmente típicas do sul dos Estados Unidos. Receitas de Sipsey, uma mulher negra que sempre trabalhou para a família Threadgoode, excelente cozinheira, que Ninny fez questão de passar para Evelyn.

     
    ***
    Um pouco sobre o filme:


    Se forem comprar o DVD, prefiram a "Edição de Aniversário", pois tem o "Making Of" com várias entrevistas com o diretor, com as atrizes e com a autora do livro (que tentou adaptar o roteiro, mas, a certa altura, desistiu). Na outra versão vem escrito Tomates Verdes e Fritos. Esse "e" não existe.


     Diretor do filme, Jon Avnet, saboreando tomates verdes fritos no Whistle Stop Cafe

    O filme foi rodado na cidade de Juliette, na Geórgia (estado vizinho ao Alabama, onde a história do livro acontece), e, depois das filmagens, o Café da Parada do Apito passou a funcionar de verdade, gerando empregos e renda para as pessoas da cidade. O site do Whistle Stop Cafe, nome original em inglês, é este.

    Whistle Stop Cafe atualmente. Foto tirada daqui.


    Whistle Stop Cafe. Foto tirada daqui.
    No filme, imagino que por razões comerciais, a relação entre Idgie e Ruth é velada. Mas, no "Making Of", o diretor comenta que a cena em que as duas personagens fazem uma guerra de comida na cozinha (que não foi ensaiada; ele as deixou improvisar no momento da gravação) é um eufemismo do ato sexual.


    Também na parte do "Making Of" do DVD, a autora do livro afirmou que, quando visitou a locação do filme, se sentiu uma pintora que tinha entrado no próprio quadro. De repente o que era algo da imaginação dela estava lá, tinha se materializado.

    ***

    Tomates Verdes Fritos

      Tomate verde frito, quiabo frito e canjica amanteigada

    Ingredientes:
    2 tomates médios verdes
    1 ovo
    Sal
    Pimenta
    Farinha de milho branca
    Bacon em fatias
    Óleo

    Modo de preparo:
    Corte os tomates em rodelas, tempere-as com sal e pimenta, passe-as no ovo batido e depois na farinha de milho branca.
    Coloque óleo na frigideira e, quando esquentar, acrescente  as fatias de bacon e, depois, as rodelas de tomate. Deixe dourar dois dois lados.

    Observações:
    1. Acabei de descobrir que perdi todas as fotos que tirei durante o preparo das receitas e só me restou esta [acima].
    2. A farinha de milho branca vem em "flocos", é preciso quebrá-la com os dedos para que fique mais fina - para fritar, é melhor.
    3. O bacon é opcional, mas como na versão do livro tinha, resolvi usar.
    4. Acrescentei o ovo à receita do livro, pois cobrir apenas com farinha não ficou bom.

    ***

    Quiabo frito

    Ingredientes:
    Meio pacote de quiabo [aprox. 150g]
    1 ovo
    Farinha de milho branca
    Óleo para fritar

    Modo de preparo:
    Lave bem os quiabos, retire os talos e corte-os em pedaços à gosto [na receita do livro a orientação é cortar no sentido do comprimento, mas cortei de outra forma]. Passe em ovos e depois na farinha de milho.
    Esquente o óleo na frigideira, acrescente os quiabos e espere dourar.

    ***

    Canjica

    Ingredientes:
    2 colheres de sopa de manteiga
    1 colher de chá de sal
    5 xícaras de água fervendo
    1 xícara de canjica

    Modo de preparo:
    Coloque a manteiga e o sal na água fervente. Acrescente a canjica. Tampe e cozinhe em fogo branco por cerca de 40 minutos, sempre mexendo.

    Observações:
    1. Nunca tinha pensado na possibilidade de comer canjica salgada. Até hoje, só conhecia a versão doce, com leite condensado. A versão salgada também é boa.
    2. É preciso mexer mais a canjica quando a água estiver secando, pois começa a grudar no fundo da panela.